<p>No início da década de 1990, um jovem repórter empunhava o microfone da equipe esportiva da Rádio Difusora e se aventurava nos campos de futebol em busca de notícias da Associação Atlética Francana. Dizem os companheiros da época que levava jeito para a coisa. Entre uma reportagem e outra, dava expediente como escrivão na delegacia de Cristais Paulista.</p><p><br />Cansado de puxar fios e aparentemente antevendo os rumos que a Francana tomaria, resolveu deixar o microfone de lado e se dedicar à carreira policial. O rádio perdeu um promissor repórter e a Polícia Civil ganhou um profissional reconhecido pela competência.</p><p><br />Ainda escrivão, formou-se em Ciências Contábeis, no Uni-Facef, Matemática, na Unifran, e Direito, pela Faculdade Municipal. Em 1999, foi aprovado no concurso para delegado de polícia. Após dar expediente em delegacias da Capital e interior, chegou a Franca em outubro de 2006 para assumir a recém-criada equipe de homicídios da DIG (Delegacia de Investigações Gerais). Também integra o GOE (Grupo de Operações Especiais).</p><p><br />Em pouco tempo, ganhou notoriedade ao trabalhar em casos de grande repercussão. Foi o policial que prendeu a advogada Adriana Telini por envolvimento em roubos. Também atuou na ocorrência da garota que teria encomendado a morte dos próprios pais. Casado e pai de dois filhos, Márcio Garcia Murari, 42, é o delegado que trocou o microfone pela arma. Conheça sua história.</p><p> </p><p><strong>Comércio da Franca - Quando decidiu que seria um policial?<br />Márcio Garcia Murari -</strong> Em 1991, eu ainda tinha um pequeno restaurante em Cristais Paulista e também lecionava na escola. Na época, foi aberto um concurso para escrivão. Incentivado pelo delegado Wanir (José da Silveira Júnior), acabei fazendo a prova e fui aprovado. Em 97, terminei o curso de Direito na Faculdade Municipal. Dois anos depois, fui aprovado no concurso para delegado.<br /><br /><strong>Comércio - Ainda como escrivão, o senhor atuou como repórter da Rádio Difusora. Como foi esta experiência?<br />Márcio Murari -</strong> Na época, o delegado Daniel Radaelli era locutor esportivo (narrava jogos de basquete) da rádio. Ele me apresentou ao Renato Valim, que me deu a oportunidade. Por quase dois anos, trabalhei na rádio como repórter esportivo. Faziam parte da equipe o Marcelo Valim, o Jaiter (hoje, escrivão). O Carlos Zacarelli (narrador) estava começando. Em um jogo, eu não tinha a credencial e fui expulso de campo. Os fiscais da federação não me deixaram trabalhar.<br /><strong><br />Comércio - O rádio perdeu um bom repórter?<br />Márcio Murari - </strong>Sempre gostei de rádio, principalmente do AM. Ouvia jogos e acompanhava os grandes locutores, como Osmar Santos e Fiori Gigliotti. Aprendi isto com meu pai, que também sempre gostou de ouvir o rádio AM. Um importante meio de comunicação que traz informações imediatas.<br /><br /><strong>Comércio - O bom policial já nasce com o dom ou aprende a sê-lo na academia?<br />Márcio Murari -</strong> Acho que a pessoa tem que nascer com um certo dom e, depois, é claro, a academia te dá uma diretriz. Durante sua vida profissional, você vai se aperfeiçoando. Depende muito da boa vontade. A profissão é cheia de espinhos. Em datas especiais, na maioria das vezes, estamos trabalhando e distantes da família. Não temos horário, nem uma rotina definida, mas encaro a profissão como uma missão. <br /><br /><strong>Comércio - O salário que um policial ganha no Estado compensa o sacrifício?<br />Márcio Murari - </strong>O policial acaba se envolvendo com as vítimas e se imbui de um espírito de luta. Muitas vezes, esquece-se até do salário que ganha para tentar levar às barra da Justiça os criminosos. É lógico que gostaríamos de ganhar um salário mais digno para dar melhores condições às nossas famílias, mas, no meu caso, o salário, em vários momentos, fica em segundo plano. Se fôssemos trabalhar somente em função de salário, não teríamos a grande motivação que é necessária. <br /><br /><strong>Comércio - O senhor passou por quais delegacias antes de chegar a Franca?<br />Márcio Murari -</strong> Comecei a atuar como delegado no 55º DP, Parque São Rafael, zona leste de São Paulo. Atuei lá como delegado-plantonista por um ano e meio. Em seguida, fui removido para Taiúva, na região de Bebedouro, onde também respondia pela cidade de Taiaçu. Após dois anos, assumi a delegacia de Guará, onde permaneci por três anos e meio. Há pouco mais de um ano, estou na DIG de Franca.<br /></p><p><strong>Comércio - Já correu riscos ao longo da carreira?<br />Márcio Murari -</strong> Acho que a gente corre riscos. Houve algumas ameaças, mas não de forma efetiva. Quando trabalhei em São Paulo, peguei a época dos resgates de presos dos distritos policiais. No meu DP, inclusive, houve dois resgates. Foram situações de perigo iminente. Nós vivíamos uma constante situação de ameaça.<br /><br /><strong>Comércio - Qual é o caso de maior repercussão que trabalhou em Franca?<br />Márcio Murari -</strong> Acredito que seja o caso da Adriana Telini, pelo fato de ser uma advogada e por ter se envolvido em outros crimes e com pessoas de alta periculosidade. O Luciano (apontado como noivo da advogada) é tido como um dos elementos mais perigosos da região de Campinas. Declaradamente, ele atua em facções criminosas. Conseguimos prendê-lo em duas ocasiões, tanto é que ele se surpreendeu com a atitude da polícia francana. As prisões ajudaram a evitar, certamente, que eles cometessem outros crimes em Franca. Todos os integrantes da quadrilha estão com a prisão preventiva decreta pela Justiça e são procurados.<br /><strong><br />Comércio - O fato de a advogada e os comparsas ainda não terem sido encontrados causa uma certa frustração?<br />Márcio Murari - </strong>De uma certa forma, sim, porque no nosso trabalho não basta esclarecer o crime. O importante é que a gente consiga prendê-los e que eles sejam julgados. Pela lei brasileira, estando eles em liberdade, o julgamento vai se protelando. Quando estão presos, a Justiça se faz mais rapidamente.<br /><strong><br />Comércio - O que mais frustra na carreira de um policial?<br />Márcio Murari -</strong> É quando há inoperância. Quando você precisa de alguma estrutura ou de algum meio dos quais não dispõe. A população assiste muito à televisão e vê aqueles seriados americanos. Lá, a estrutura é completamente diferente da nossa. Muitas vezes, as pessoas acham que temos igual. Se tivéssemos um pouco daquela estrutura, tenho certeza que a polícia brasileira seria, tranqüilamente, a melhor do mundo.<br /><br /><strong>Comércio - Qual a sensação de esclarecer um crime e mandar o autor para a cadeia?<br />Márcio Murari -</strong> É uma sensação de dever cumprido. Antes de ser um policial, sou um funcionário público. A gente até brinca que nossa clientela é a população, que nos procura, principalmente, nos momentos de aflição. Quando a gente consegue esclarecer um crime e prender os autores é motivo de muita satisfação. Apesar de nossa infra-estrutura não ser a necessária, temos correspondido, devido à qualidade de nossos policiais, e esclarecido casos importantes. Os bandidos que se diziam líderes de facções estão na cadeia, o mesmo acontecendo com autores de assassinatos.<br /><br /><strong>Comércio - Qual é o crime mais difícil de ser apurado?<br />Márcio Murari -</strong> Acredito que seja o homicídio. Você parte do nada para esclarecer o que aconteceu. Justamente pela dificuldade, é que criamos uma equipe para apurar este tipo de ocorrência. Formado por cinco investigadores e uma escrivã, o grupo começou a trabalhar no fim de 2006. Os resultados são bastante positivos. Obtivemos êxito em esclarecer 100% dos casos ocorridos este ano na cidade.<br /><br /><strong>Comércio - Qual é o desafio?<br />Márcio Murari -</strong> O maior desafio é fazer sempre, diuturnamente, o combate à criminalidade, levar tranqüilidade para a população e mostrar um trabalho mais eficiente possível.<br /><br /><strong>Comércio - O senhor falou em tranqüilidade. Embora as estatísticas indiquem que a violência está caindo na cidade, a população não sente isto no dia-a-dia. Casos de ladrões invadindo residências para roubar, por exemplo, tornam-se cada vez mais freqüentes. A situação preocupa?<br />Márcio Murari -</strong> As ocorrências do tipo têm se mantido dentro da média ou até mesmo caído, mas é claro que estamos preocupados. É pior uma vítima ser atacada dentro de casa com a família do que na rua. É uma situação de risco, que pode acabar em morte. Determinamos equipes de investigadores para esclarecer e prender os autores deste tipo de roubo. Alguns dos envolvidos já estão na cadeia e seguimos com as investigações. A polícia de Franca é uma das que mais prendem em toda a nossa área. Sabemos que é preciso fazer mais e estamos empenhados para isto.<br /><strong><br />Comércio - Qual é sua meta na polícia? <br />Márcio Murari -</strong> Continuar desempenhando minha função da melhor maneira possível. A meta é galgar postos acima, quem sabe um dia, de direção, mas não a curto prazo. Todos que estão na instituição almejam chegar a um cargo melhor por meio de promoções. Isto é fruto de um trabalho que a gente desempenha. <br /></p>
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