Na calada da noite


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Até bem pouco tempo atrás, a área rural de Franca contava com pequenas matas e cerrados, mesclados com pastagens para o gado e plantações destinadas à alimentação humana. Mas, gradativamente, esse cenário bucólico cedeu lugar para a nefasta cana-de-açúcar, que hoje, pelo uso, deveria mesmo era ser chamada de “cana-de-álcool”. Por si só, o plantio de cana já é muito nocivo para o solo. É vegetação que suga água em excesso não permitindo a natural reposição da umidade para a atmosfera, como normalmente ocorre com os demais tipos de plantas. O canavial seca tudo no seu meio, nem mato nasce entre os pés. Só a cana cresce. E cresce para sorte do industrial alcooleiro. Somente o empresário do setor lucra. A falsa ilusão de ter um produto carburante de baixo custo dura pouco. O carro “bebe” álcool barato. Mas você come arroz e feijão caros. O espaço antes destinado ao cultivo de alimentação é ocupado pela cana, que fica bem próxima da usina, podendo assim produzir combustível a preço menor. Não bastasse o azar de pagar mais caro pelo arroz, feijão, leite e outros produtos alimentícios, pois vêm de longe, a população é contemplada com mais uma espécie de poluição ambiental, oriunda das queimadas, proibida no Estado de São Paulo, mas nem tanto. Não existe respeito à norma estadual. Para comprovar os efeitos de uma queimada, preste atenção naquela fuligem que amanhece ao redor de sua casa, visível principalmente nos pisos de cores claras. Ou então, bem na calada da noite, ande pela periferia da cidade – os canaviais já fazem limites com a região urbana –, para se assustar com o imenso fogo, soltando tufos de fumaça. É justamente essa fumaça que resseca ainda mais a atmosfera, propiciando o ar seco, tão favorável às doenças respiratórias. A queimada abate as folhas de cana exatamente na época mais crítica do ano. O malefício dessa ação criminosa torna-se perceptível a curto prazo. Bem antes de o inverno oficialmente chegar, os postos de atendimento na área de saúde pública estarão abarrotados de pacientes, principalmente crianças e idosos. Não se pode aceitar a queimada como um mal necessário. A mecanização atual permite a colheita de cana de maneira diferenciada. Sem dúvida, o custo deve ser maior, mas a saúde humana tem que estar acima do lucro. A Lei 9.605/98, de proteção ambiental, no seu artigo 47, incrimina quem provoca incêndio na flora, mesmo a artificial. Mudando o enfoque, mas continuando no canavial, cortar cana é um dos piores serviços que existem. Imagine uma pessoa trabalhar dez horas por dia debaixo de um sol inclemente. Ainda por cima, manejando um facão para cortar um produto todo cheio de uma camada áspera, espinhenta, que penetra na pele, causando uma dorzinha ardida e intermitente. Ah, sim, o seu serviço é que é ruim! Os outros todos são bons. Inclusive cortar cana. Então experimente executar essa atividade por cinco minutos... Antônio Araújo Professor de redação. E-mail: tonin.palavras@uol.com.br

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