Com dedicação, bom humor e paciência, elas derrubaram a máxima de que “mulher ao volante é um perigo constante” e estão ocupando um espaço que antes era exclusivamente do universo masculino. Basta dar uma espiadinha na porta de escolas para constatar: é cada vez maior o número de mulheres transportando alunos em vans. É verdade que eles ainda são a maioria, mas elas já conquistaram a confiança de muitos pais. De cada nove motoristas escolares cadastrados pela Prefeitura, três são mulheres.
Para o tenente Sérgio Buranelli, diretor de Trânsito da cidade, a presença delas nas vans escolares é resultado da conquista de mercado e personalidade feminina. “As mulheres têm mais afinidade com crianças, principalmente porque a maioria é mãe. A tendência é essa quantidade aumentar. Sempre que um casal nos procura interessado no serviço é a mulher quem quer dirigir”. Franca tem 125 motoristas de vans escolares legalizados, 40 são mulheres.
Uma das exigências para o transporte escolar é ter CNH (Carteira Nacional de Habilitação) categoria D. A Auto-Escola União é uma das que oferecem aulas para carta de ônibus e vans. Mauro Freitas Júnior, instrutor e sócio-proprietário da empresa, disse que, desde 2006, o número de mulheres interessadas em dirigir vans é crescente. “Por ano, atendemos, em média, 180 alunos que tiram a categoria D para transportar estudantes. Deste total, cerca de 40 são mulheres. Antes, elas nem nos procuravam”.
Társia Cristina Paulo, 39, decidiu abraçar a profissão há nove anos. Na época, trabalhava com venda de anúncios e teve a idéia de trocar de ramo a partir de uma brincadeira. “Dava carona para amigos das minhas filhas até a escola. Um dia brinquei com as mães deles dizendo que, no dia 10, era para me pagarem R$ 50 pelo transporte. Elas levaram a sério”.
Depois do pagamento, Társia teve a certeza de que queria mudar. Pediu demissão e, com o acerto da empresa, comprou a primeira Kombi. Já está na terceira van e se diz apaixonada pelo que faz. “Amo crianças, amo barulho e amo dirigir. Não me arrependo em nenhum minuto da troca. Antes eu vivia ocupada. Hoje tenho mais tempo para minhas filhas”.
A rotina para levar e buscar mais de 50 alunos na escola ou universidade é puxada. Társia trabalha em três turnos: de manhã, tarde e noite. Dirige a van por nada mais nada menos que 238 quilômetros por dia. A maratona começa ainda de madrugada. Às 5h30, está de pé. O primeiro turno termina por volta das 7h30, quando retorna para casa e cuida dos afazeres domésticos, refeições, das filhas, faz ginástica, massagem, as unhas e escova no cabelo. Às 11h20, o trajeto entre as casas dos alunos e escolas recomeça. Essa rodada termina às 13 horas.
À tarde, ela cuida de outros detalhes da casa e dela própria e assume o volante de novo das 16 às 19 horas. A jornada só termina à noite, às 23h30. Ainda assim, Társia acredita que é um dos empregos mais flexíveis para as mulheres se ajustarem à dupla jornada. “É corrido. Cada minuto é sagrado. Não posso atrasar. Mas sempre falo que ser motorista de van é serviço para mulher, pois dá tempo de lavar, passar, limpar a casa e cuidar de si mesma”.
Társia reconhece que dirigir com dezenas de crianças falando sem parar e enfrentar o trânsito diariamente é estressante, mas ela diz administrar bem as adversidades da profissão. A reportagem acompanhou a rotina dela ontem por uma hora e meia e sentiu “o drama”. Társia precisa estar atenta ao trânsito e garantir ordem dentro do veículo. “Senta, fulana”, “Dá licença”, “Vamos, gente” são frases bastante repetidas. A cada parada, para entrada e/ou saída dos passageiros, é uma buzinada. “Estressante é, mas gosto muito do que eu faço e acho gratificante financeiramente. Para mulher, é um salário bom”, disse ela, que calcula lucrar entre R$ 1.300 e R$ 1.600 por mês. “Cada aluno custa, em média, R$ 75, mas gastamos muito com pneus, peças e combustível”.
Espelhando-se na trajetória da mulher, o marido de Társia tem planos de deixar a fábrica de sapatos onde trabalha para ser motorista escolar também. Ele ainda não conseguiu licença da Prefeitura, mas já está na fila. Quando tiver o alvará, vai comprar a van e seguir o mesmo caminho dela. Muitos casais já trabalham no ramo.
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DAS AGULHAS PARA O VOLANTE
Gislaine Cristina Oliveira, 31, deixou o trabalho com sapatos para ser motorista de van. Ela tinha uma banca de pesponto, mas, em 2003, resolveu vender suas máquinas e, com o dinheiro, comprar uma van e transportar estudantes. “Os negócios com calçados não estavam bem. Eu sempre gostei de estar na rua. Um dia estava na calçada e vi uma mulher dirigindo uma van. Na hora, pensei que era uma idéia boa. Decidi mudar”.
Apesar da rotina desgastante, Gislaine está satisfeita com a profissão. “É um trabalho que requer paciência e disposição. Acordar e ver o pneu furado, sem saber se dará tempo de consertar, é complicado. Mas vale a pena”.
Para ela, uma das vantagens de ser mulher é a preferência dos pais e mães. “Eles preferem mulheres, que são mais pacientes. Não quero desmerecer nenhum perueiro, mas é diferente”.
Gislaine percorre 160 quilômetros todos os dias de casas para escolas dos Jardins Paulistano e São Luiz. Para ela, o melhor momento do dia é quando entrega o último aluno e volta para casa. “É uma sensação de missão cumprida. Não tem hora melhor”. De volta ao lar, é hora de cuidar da casa e dos quatro filhos. “Não tenho ajudante. Eu faço tudo”, disse ela, que como motorista tem renda de R$ 1.500 mensais em média.
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