Casal comemora seis décadas de união


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Acordar ao lado da mesma pessoa todos os dias, superar dificuldades juntos, acompanhar revoluções no Brasil e no mundo, perder familiares e amigos e, depois de criar os filhos, vibrar com o nascimento dos netos e bisnetos. Viver essas e outras situações a dois durante décadas é uma raridade, principalmente em tempos de casamentos pouco duradouros, mas Antônio, 89, e Isabel Giolo, 88, venceram os anos e, na última terça-feira, comemoraram uma marca invejável: 64 anos de casados. “É muito difícil existir um casal com tantos anos juntos. A minha satisfação é ter criado nossos filhos”, disse ele. A vida a dois começou ainda na adolescência, nos passeios pela praça de Pedregulho. Por alguns anos, o relacionamento foi a distância porque Isabel e a família se mudaram para Ribeirão Preto e Antônio ficou em Pedregulho. Na época, o telefone ainda não era tão popular. O jeito era se corresponder por telegramas. Os trocados nesse período do namoro amarelaram e foram jogados no lixo. Para namorar, os dois tinham de ficar atento aos olhares de repreensão dos irmãos dela, que eram “bravos”. Mas um dia, Antônio tomou coragem e pediu a mão de Isabel à sogra, que era viúva. “Ela disse que por ela tudo bem a gente se casar, mas que elas não tinham nada, que eu levaria apenas o corpo da Isabel. Era tudo que eu precisava, né?”, disse ele, em meio a gargalhadas. O casamento civil foi feito no dia 27 de maio de 1944, tempo da 2ª Guerra Mundial, em Ribeirão Preto. A união religiosa aconteceu em Franca num casamento comunitário na Praça João Mendes. “Os missionários vieram na cidade e nós casamos. Não me vesti de noiva, mas foi bonito, em conjunto com outros casais”, relembra Isabel. No início da união, os tempos eram difíceis. Para sustentar a casa e conseguir criar os seis filhos (apenas um homem), Antônio, que vivia com o salário de sapateiro, precisou se desdobrar no emprego. “Criar seis filhos não é brinquedo não. Depois que casei não tirei um sábado e domingo, fiz serão na fábrica até os meninos crescerem e me ajudarem. Hoje eles que cuidam da gente”, disse ele. Dos raros passeios, os que mais marcaram foram as viagens de trem até Ribeirão. “Visitávamos meus parentes. Lembro que a brasa do trem voava na roupa e no chapéu e furava... A gente parava na Boa Sorte para tomar água, uma água boa”, recorda Isabel. Os espetáculos do circo montado na Praça João Mendes, em Franca, também se tornaram memoráveis. “A gente ia sem transporte, a pé com as crianças no colo. Carregava cada um no braço dormindo. Era difícil, mas tudo muito bom”, disse Antônio. Antônio se aposentou em 1977, mas durante mais 25 anos manteve uma oficina nos fundos de sua casa para consertar sapatos. O trabalho precisou ser interrompido por problemas de saúde. “Tive uma ameaça de derrame e perdi as forças nos braços. Também não enxergava bem mais. Desmontei a oficina. As freguesas ficaram tristes quando parei”, disse ele, orgulhoso. Hoje Antônio e Isabel passam a maior parte do tempo em casa. Ele gosta de acordar mais tarde; ela quer estar de pé bem cedo para cuidar das plantas, ir comprar pão e fazer as refeições. “Gosto de levantar cedo, sete e meia no máximo, e já fazer minhas coisas. Ele acorda, mas fica deitado até umas 9 horas”. Os dois criaram os filhos com dificuldades e se orgulham desta conquista. Com a idade que os pais têm hoje, os papéis na família se inverteram. “A gente cuidou deles. Agora eles que cuidam da gente. Fazem de tudo”, disse a mãe. Os seis filhos, com idades entre 63 e 44 anos, são casados. O casal já tem 12 netos e quatro bisnetos. Quando os filhos estão longe, os dois se cuidam. “Ela faz de tudo para me ajudar, é uma mãe. Até para andar preciso de ajuda”, disse ele. “A gente parece irmão. Somos só nós dois. O outro não quer morrer para não deixar o outro sozinho. Mas os dois não vão morrer de uma vez, né? É um de cada vez”, disse ela, que durante as fotos para a reportagem avisou que “beijo não se usa mais entre eles”. O motivo? A idade. “Já estamos velhos”, disse, rindo. Para os casais que quiserem alcançar a marca de Antônio e Isabel na vida conjugal, dedicação, paciência e cumplicidade são essenciais, garantem os dois. “Para chegar, tem de querer. De primeiro, não era tão difícil, mas depois a gente aprende. Hoje em dia, falta amor entre o casal, combinar mais, se dar (bem) um com outro... Qualquer coisa que acontece já começa a brigar, quer separar, não pode ser assim”, disse Isabel. “A gente até tem umas briguinhas hoje, mas logo estamos de bem”, completou o marido.

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