Lado a lado com o Vigilante Rodoviário


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Os olhares se voltavam com curiosidade para carros impecáveis, lindos e bem cuidados. Todas as marcas mais glamourosas do mundo, cobrindo um período de sete décadas - de 1902 aos anos 70 - estavam representadas por peças de museu e de desejo. Mas na 22ª Exposição de Antigomodelismo de Araxá (MG), realizada no último fim de semana, não eram os caros e raros representantes da história automobilística os que mais chamavam a atenção. Carlos Miranda, o eterno Vigilante Rodoviário, desbancou com muita distância qualquer estrela do evento. A reportagem encontrou esse senhor alto, absolutamente elegante em sua farda dos anos 60, a mesma que usara nos episódios da primeira série produzida exclusivamente para a televisão brasileira. Em seu estande, no evento da cidade mineira, tida como o mais importante do Brasil entre os colecionadores de carros antigos, Miranda não se sentava. Não que não quisesse; é porque não podia. O assédio era tanto, que esse coronel aposentado da Polícia Militar Rodoviária do Estado de São Paulo, aos 75 anos, mal conseguia tomar água. Crianças, mulheres, mas, principalmente, homens se declaravam publicamente numa tietagem que, segundo ele, se repete onde quer que vá. Ele e seu Simca Chambord azul e amarelo. Nos 15 minutos em que conversamos com Carlos Miranda, foram inúmeras as interrupções. Gente com 40, 50, 60 anos que não perdia um único capítulo da série, que começou em 1961, exibida pela Rede Tupi de Televisão. Três anos antes, em 1958, a idéia era fazer um filme, mas o nome escolhido, "Patrulheiro Rodoviário", já estava comprometido, porque a concorrência tinha planos de lançar "Patrulheiros do Oeste". Na Rede Tupi, em sua segunda semana de exibição, Vigilante rompeu todos os tabus numa época em que apenas 30% das residências possuíam televisão. "Nós lançamos a série sem nenhuma pretensão. Era para dar emprego para o ator brasileiro, que não conseguia trabalhar, porque tudo vinha de fora, dos Estados Unidos", disse Miranda. Questionado sobre como encara essa fama e o carinho do público, o Vigilante declarou que parte disso pode ser associada à sua pessoa, outra parte à minissérie. "Era feito com muito carinho e honestidade. E para você ver: não tínhamos muitos recursos, simplesmente porque eles não existiam", disse. Mesmo assim, a série foi um sucesso, senão o maior sucesso da TV brasileira em todos os tempos. Naqueles anos, quando a dramaturgia na telinha nem engatinhava direito, foi comum encontrar Stênio Garcia, Fúlvio Stefanini e Rosamaria Murtinho contracenando com Carlos Miranda, o Simca e o pastor-alemão Lobo. E foi a pergunta sobre Lobo que quase fez o vigilante cair em prantos. Na frente de um grupo grande de pessoas, ele se emocionou ao lembrar do cão, sem o qual a série, em suas palavras, não teria existido. Nesse momento, um publicitário de São Paulo, com 57 anos, chega aos gritos. "Vigilante Rodoviário, Vigilante Rodoviário! Eu não acredito", exclamava Júlio César Santos, de Belo Horizonte. "Pô, como não ficar emocionado? Eu não perdia um episódio", disse. Depois de protagonizar a série, Carlos Miranda foi convidado pelo Comando da Polícia Rodoviária Paulista a entrar para a corporação. De 1962, quando ingressou, passou por todos os postos de oficiais até se aposentar como tenente-coronel, sendo o primeiro caso de um ator profissional que trocou as câmeras de TV pelas viaturas policiais. Hoje, Miranda participa com seu Simca de exposições por todo o Brasil. De Araxá seguiria para o Rio Grande do Sul e de lá, para Natal, no Rio Grande do Norte. "Eu vivo do trabalho que eu fiz e da lembrança das pessoas, do público. Depois de 50 anos você ser querido é algo que não se explica facilmente", ponderou o senhor garboso antes de voltar a autografar seu cartões-postais.

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