Jóias sobre 4 rodas


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Quase Europa  - O Grande Hotel e Termas de Araxá (MG), construído em 1925 com arquitetura italiana, guarda, imponente, veículos históricos do Encontro Nacional de Antigomobilismo; ingleses, alemães, italianos, franceses
Quase Europa - O Grande Hotel e Termas de Araxá (MG), construído em 1925 com arquitetura italiana, guarda, imponente, veículos históricos do Encontro Nacional de Antigomobilismo; ingleses, alemães, italianos, franceses
Não foi uma Ferrari F-40, um Lamborghini Diablo ou uma Mercedes “asa de gaivota”, nem mesmo um raro e imponente Isotta Fraschini ou um Rolls Royce impecável o que mais chamou a atenção na 22ª edição do Encontro Nacional de Antigomobilismo, realizado em Araxá (MG). No principal evento de carros antigos do País, quem teve para si todos os olhares foi Carlos Miranda, o “Vigilante Rodoviário”, um dos mais famosos personagens da TV brasileira de todos os tempos. Realizado entre 22 e 25 de maio, foi um evento para deixar homens e mulheres apaixonados por carros com crises compulsivas. Sobre os tapetes vermelhos espalhados em frente à entrada do Grande Hotel e Termas de Araxá, veículos de sonho, raros em sua maioria, exóticos, clássicos, esportivos, pequenos ou grandes, deslumbrantes. Quase todos caros, muito caros, embora não seja esse o aspecto que seus proprietários mais apreciem comentar. Mesmo quem não tem tanta intimidade com o assunto acaba se rendendo. Fragmentos da indústria automobilística nacional e estrangeira estavam representados por veículos que cobriam mais de 70 anos de história; de 1902 até o final dos anos 70. A reportagem do Comércio da Franca foi à cidade mineira para acompanhar um dia do encontro que reuniu 320 carros e mais de 30 mil visitantes. Na chegada ao Balneário do Barreiro, onde fica o hotel e local do evento, a ala pobre dos que se consideram colecionadores de ocasião já está instalada. Brasílias, Variants, Dodges e Opalas sendo um oferecido por R$ 60 mil esperam que alguém lhes dispense um olhar de piedade e os leve para casa. Ao final do sábado, ainda estavam lá. Num espaço de pouco mais de 15 metros, passado um pequeno portão em que uma morena distribuía folders de um dos patrocinadores, o visitante tinha a impressão de ter desembarcado em Mônaco dos anos 60 ou 70. Carros europeus, esportivos em sua maioria, estavam perfilados, sendo que um impecável Lamborghini Diablo preto recebia os olhares mais lascivos. Dentro da área principal, carros com classificação internacional, o que garante participação em qualquer exposição, estavam nos tais tapetes vermelhos. Cifras impressionantes, que começavam em US$ 800 mil (R$ 1,36 milhão), cercavam veículos mais impressionantes ainda. Um deles se destacava pelo porte imponente, pelo tamanho e pela história. O Isotta Fraschini, de mais de um milhão de dólares, pertenceu ao aviador João Ribeiro de Barros, brasileiro que em 1927 cruzou o Atlântico, voando até Gênova, na Itália. Ganhou o carro de presente. Vendo esses automóveis, é impossível não associá-los a intrigas, romances interrompidos, guerras, disputas de todo tipo. Se for por aí, nada tem mais história que o francês De Dion-Bouton. Construído em 1902, é o carro mais antigo emplacado no Brasil. Bem ao gosto dos franceses, que acreditavam ser possível dirigir e conversar ao mesmo tempo, tinha bancos que posicionavam os quatro ocupantes, dois a dois, de frente. Chamado de vis-à-vis, nunca foi aceito nos Estados Unidos, que consideravam impossível o condutor ver alguma coisa, sobretudo quando este fosse menor que o acompanhante. Na outra ponta da exposição, uma Ferrari F-40 também era motivo de muitas fotos e comentários. Na descrição do jornalista José Resende Mahar, especializado em mercado automotivo, a Ferrari funciona como um “extensor peniano”. “Não serve para nada, se você for ver. Não dá para andar nas nossas ruas, dá trabalho para manter, não tem visibilidade e sua cabeça fica a 20 centímetros do motor”, disse. “Mas quando você liga esse bicho, você entende por que falam tanto dela”, completou. O carro, de fato, é uma monstruosidade. Construído para comemorar os 40 anos da fábrica italiana, tem 478 cavalos de potência, vai de 0 a 100 quilômetros por hora em 4 segundos e atinge velocidade final de 330 quilômetros. O esportivo italiano, símbolo de poder e status, está avaliado em parcos R$ 1,3 milhão. Dinheiro que não faz diferença para um empresário de Belo Horizonte que chegou a Araxá dirigindo a sua Ferrari e a filha outra. No passeio que reserva sucessivas surpresas, foi possível ver um impecável caminhão do Corpo de Bombeiros da Inglaterra de 1920, uma Romi-Isetta, aquele carrinho com apenas três rodas, entre tantas outras curiosidades. Mas foram, talvez, duas atrações as que mais chamaram a atenção no encontro de Araxá. A primeira, um carro necrotério. Construído em data incerta, foi adquirido pelo aposentado Victor Presotto, de Franca. Segundo ele, o carro foi encontrado às moscas no interior do Rio Grande do Sul e adquirido junto ao dono de uma funerária. Por si só o veículo já uma obra de arte. Construído em cedro rosa, é ricamente detalhado com figuras mitológicas que remetem à morte e à salvação. Presotto, que tem oito veículos antigos, acredita que, originalmente, a câmara funerária tenha sido construída antes de 1917 como carruagem para cavalos. O chassi é de 1935. Já no deslocamento para Franca, foi apreendido pela fiscalização no Estado de Santa Catarina, por se tratar de uma “obra de arte”. “Após trazê-lo para Franca, a preocupação era com a restauração”, disse o proprietário. “Com a ajuda de um profissional italiano, pintamos toda a estrutura”. O veículo recebeu pintura a ouro, a mesma que cobre alguns altares barrocos em Minas Gerais, e foi sondado, em 2004, para levar os despojos de Getúlio Vargas pela cidade de São Borja, no aniversário de 50 anos de sua morte. A outra atração não foi um carro, mas um homem. O ator e coronel aposentado da Polícia Militar Rodoviária Paulista, Carlos Miranda. Nos anos 60, protagonizou a primeira série da televisão brasileira. Na pele do vigilante rodoviário, acompanhado de seu fiel pastor alemão “Lobo”, Miranda entrou no imaginário de muita gente que hoje ostenta barba e cabelos brancos. “Foi uma geração inteira que se identificou com o nosso trabalho. Foi bom porque fazíamos com amor”, disse o sorridente senhor de 77 anos, alto e elegante em sua farda de 50 anos atrás, ao lado do inseparável Simca Chambord azul e amarelo. Falta mesmo, apenas do cão Lobo, o fiel pastor alemão, coadjuvante em suas aventuras. [FOTO2] No encontro de Araxá não são inscritos motocicletas nem carros com menos de 30 anos de fabricação. A premiação não segue uma ordem determinada. Três fiscais elegem os melhores carros subjetivamente, mas levando em conta aspectos como raridade, conservação, beleza, entre outros. Ao final do evento, outro francano saiu satisfeito. O carro do aposentado João Ranhel, um HRG de 1948 foi escolhido como um dos melhores da mostra. O veículo, raro, teve apenas 241 unidades construídas entre 1936 e 1954.

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