Verba mollia et efficacia - “As boas palavras custam pouco e valem muito”. Provérbio latino.
Recebi esta semana uma correspondência da Ordem dos Advogados do Brasil, a OAB. Assinado por Mansur Jorge Said Filho, presidente da 13ª subsecção de Franca, e por Maria Elisabete Moreira Ewbank, coordenadora da Comissão de Cidadania e Ação Social, o ofício datado de 15 de maio é um convite para a aula inaugural do projeto “OAB vai à escola 2008”.
O programa, uma parceria entre a Secretaria Estadual de Educação e a OAB, tem objetivo nobre. Pretende levar conceitos e noções de cidadania a alunos de escolas públicas. No ano passado, mais de 3,3 mil alunos de 24 escolas públicas de Franca passaram pelo programa. As aulas são ministradas por um grupo de 20 advogados. Todos, voluntários.
Tudo muito bonito, não fosse um detalhe: a mesma OAB que idealiza e promove um programa que pretende ajudar na formação ética e moral de nossas crianças se recusa a, publicamente, punir e condenar os maus profissionais que fazem ou pretendem fazer parte dos seus quadros. Na mesma semana em que recebi o ofício, dois comportamentos da OAB deixam claro a dificuldade que a Ordem dos Advogados tem de atuar no plano concreto.
No primeiro caso, o Conselho Seccional do Estado da OAB decidiu não expulsar de seus quadros Adriana Telini, a advogada-bandida envolvida em toda sorte de trambiques. A única punição decidida por enquanto é uma suspensão por 11 meses. Além de se relacionar intimamente com marginais cuja ficha criminal mete medo em muitos policiais, a “doutora” Telini foi flagrada em escutas telefônicas conspirando e armando roubos contra seus próprios clientes. As gravações não deixam dúvida, nem o depoimento de um comparsa. Sua prisão foi decretada e hoje ela é uma foragida. Mas, para todos os efeitos, Adriana Telini continua integrante dos quadros da OAB. Seria curioso descobrir se pelo menos sua anuidade ela paga em dia.
No segundo caso, um rapaz de Guariba que se graduou em Direito em Franca protagonizou cenas absurdas pelas ruas da cidade. Com facão em punho, cometeu uma série de três roubos entre domingo e segunda-feira. Foi preso por policiais dentro de uma Saveiro prata. Estava com sua namorada. Na delegacia, confessou os crimes.
Alegou ter agido sob efeito de drogas. Acabou liberado, não sem antes a polícia descobrir que o bacharel tem passagem anterior por furto de gado. E o que o rapaz de Guariba fazia em Franca? Veio participar do exame da Ordem dos Advogados. Se aprovado, estaria autorizado a advogar, além de passar a gozar das mesmas benesses de que desfruta Adriana Telini. Sobre o caso, a OAB diz que, se comprovadas as acusações, o rapaz pode ser impedido de integrar os quadros da Ordem. Bem entendido, tudo no futuro. E bem na condicional.
Os dois casos expõem com clareza a maneira como o corporativismo está arraigado nas instituições brasileiras. Em nenhum dos casos houve uma nota pública grave da OAB. O presidente Mansur Jorge Said, homem sério e correto, ressalte-se, encontra enormes dificuldades para dizer o que pensa sobre Adriana Telini. Quando o faz, é sempre na condicional: se for considerada culpada, se tudo se provar, quando a Justiça decidir.
De nada adianta tentar transmitir a estudantes conceitos de cidadania se as ações não acompanham o discurso. Pouco vale falar sobre os direitos de um cidadão na sala de aula se o menino sai dali, chega em casa e ouve o pai dizer que uma bandida que rouba seus clientes continua advogada. E que nenhum de seus colegas a condena.
Enquanto agir assim, a OAB apenas reforça a máxima “Faça o que eu digo mas não faça o que eu faço”. Os exemplos valem muito mais que os discursos. Quanto mais rápido a OAB se der conta disso, melhor para nós. Temos pressa.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br
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