Por que a gente não consegue realização verdadeira em muita coisa? Falta de envolvimento, no sentido de comprometimento, participação. A tarefa mais banal requer envolvimento, entrega, dedicação, paixão mesmo. É preciso entrar no jogo pra valer, pôr o coração, ir fundo, ficar ligado, fazer sabendo o quê, para quê e o porquê. Ser pai é muito mais do que gerar, ser cônjuge vai muito além do dormir junto. Ser professor é bem mais do que simplesmente cumprir a grade curricular; é verdadeiramente ensinar, é não passar para o próximo tema sem que o anterior tenha sido realmente aprendido. Ser cidadão é infinitamente mais do que encher o peito e exigir direitos: é assumir responsabilidades.
Fala-se em liberdade, mas numa concepção deturpada. Ler é muito mais do que passar a vista pelas palavras; é penetrar no seu sentido. Um bom livro exige várias leituras. Muita gente repele os grandes livros porque tem preguiça de pensar, de exercitar o raciocínio. Daí a preferência pelos descartáveis, que não exigem quase nada do intelecto. Por isso se fica tanto tempo na frente da TV, colhendo informações mastigadas e coisas sem conteúdo.
O superficialismo domina; com medo de não conseguir o que almejam, de se decepcionar, de sofrer, as pessoas fogem da paixão, da entrega, da luta; reprimem os desejos, os sonhos, impõem limites à própria capacidade, impedem-na de manifestar-se plenamente. Não querem se expor, fogem da vida. Os relacionamentos virtuais atraem tanta gente porque são superficiais, não exigem que se encare um ao outro, face a face, olho no olho. Na convivência descompromissada, ao menor sinal de dificuldade se pula fora. Muitos casais saem da privacidade a dois e buscam a volúpia em aventuras coletivas; dizem-se liberais, mas o que isso evidencia é a degradação da relação. No casal em que há envolvimento mútuo, um parceiro não precisa senão do outro para encontrar e proporcionar satisfação.
Cada pessoa deve ser protagonista, e não simples coadjuvante, da própria vida. É necessário mergulhar na existência, colocar sentimento, intensidade, densidade. Nada de automatismo. Não somos robôs programados para agir maquinalmente. Somos seres humanos, pensamos, sentimos, temos alma. Por isso estamos sujeitos à tristeza, à solidão, à instabilidade emocional, mas também à alegria, à elevação, ao amor; podemos ser donos, e não escravos, dos nossos atos. A humildade é uma virtude, mas não pode descambar para o complexo de inferioridade, para a subserviência a tudo e a todos, a ponto de despertar piedade. É bom envolver-se o suficiente em projetos proveitosos e úteis; assim não sobra tempo para ocupações sem valor. Dizem que, quando se quer algo bem feito, deve-se passar para alguém muito ocupado. A maioria das pessoas não se envolve com afazeres realmente importantes; perde tempo com futilidades, coisas sem propósito; há uma curiosidade mórbida sobre fatos da vida alheia que nada acrescentam.
Joga-se fora, desejando a queda alheia, o tempo que se deveria utilizar para o próprio crescimento. Às vezes a nossa vida vai mal porque estamos preocupados demais com a dos outros. A gente costuma reclamar da falta de tempo na nossa vida. Será que não estamos deixando de pôr vida no nosso tempo?
Paulo Pereira da Costa
Promotor de Justiça, autor de Pensando na Vida (Martins) – paulopereiracosta@uol.com.br
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