Desloquei minha biblioteca de lugar há algumas semanas e percebi quão difícil está manter livros nestes tempos modernos. A estante – você se lembra delas? – armário pesado, com portas corrediças de vidro e madeira, depositária dos livros que gente de minha faixa etária amealhou ao longo de décadas de estudos e coleções, estática à minha frente. O que fazer com ela?
Eu não tenho a Barsa, a enciclopédia britânica objeto do desejo de 11 entre dez estudantes dos anos 70 e 80, onde se podia encontrar de tudo, base para as pesquisas que os professores passavam a seus estudantes e que se tinha mesmo de fazer, sob pena de nota baixa e perda real do ano escolar, ao contrário do que acontece hoje, em que o trabalho pedido é resolvido com um “control-C” (copiando trechos inteiros da Internet, sem qualquer leitura) e um “control-V” (colando o trecho inteiro, e não lido, e não compreendido, e não apreendido), para que os mestres – maioria deles – considerem a “lição” feita, sem qualquer preocupação com aprendizado. E, ao final do ano, “progressão automática”!!!
Mesmo sem a Barsa, tenho aí uns mil e quinhentos exemplares. Guardo ainda uma “História do Mundo”, o primeiro livro de verdade que tive – ganhei de meu pai e considero relíquia – no qual, por causa da insistência de minhas primeiras professoras, Noêmia Martha e Maria José, entrei fundo e construí os primeiros cenários mentais que fiz na vida, tomando gosto pela leitura e, por causa disso mesmo, pela escrita e pela fala. Cada exemplar tem sua história e, juntos, formam a minha história.
Hoje, ninguém mais é forçado a carregar livros consigo. Praticamente todo o conhecimento humano está ao alcance de um clique de computador. Acha-se tudo o que se procura na grande rede, mas há um diferença, fundamental, essencial, terrível: ninguém mais lê nada. Aliás, refazendo: quase ninguém lê história, geografia, ciências físicas, biológicas e humanas; ninguém tem paciência para consumir a fantástica literatura brasileira – Machado de Assis, José de Alencar, Castro Alves, Monteiro Lobato, Olavo Bilac, Castro Alves, para citar apenas alguns poucos daqueles que os de minha geração leram com prazer e não por dever nos tempos de escola – na tela de computador.
Alguns meios de comunicação brasileiros tentam, de quando em quando, reeditar em papel e capa dura alguns destes clássicos, aliando a venda ao exemplar do dia, mas herdando “encalhes” monumentais. Parece que o destino do livro, físico, é mesmo e infelizmente, o esquecimento.
Minha biblioteca não está mais na estante, que penso em vender ao Paulo Godoy, companheiro jornalista do Comércio que garimpa peças do tipo por aí. Está – e me orgulho disso – em minha memória, na “caixa-preta” de conhecimentos que abarquei porque tive gente que, a princípio, me forçou a consumir conhecimento impresso e que depois, com habilidade, me fez perceber que eu estava gostando e que não poderia mais viver sem a leitura. Embalei meus livros.
Quero preservá-los até onde puder. Quero deixá-los para meus netos. E quero ensiná-los a gostar do que os livros guardam. Isso ainda pode ser herança considerável, embora os jovens modernos prefiram tecnologia, “control-cês” e “control-vês”. Evolução?
NÃO ESTAMOS RECEBENDO!
Algumas dezenas de livros didático-pedagógicos compunham minha biblioteca. Embalei-os também e fui doá-los à Biblioteca Municipal “Américo Maciel de Castro”, de Franca, no Champagnat. Certamente poderiam se tornar objeto de consulta a estudantes carentes. Perguntei ao jovem funcionário que me atendeu como deveria fazer para deixá-los lá. Ele foi incisivo: “não recebemos este tipo de livro, aqui. Se o senhor puder, leve-os ao CAIC, no City Petrópolis”. Eu não podia e disse a ele. O moço não pensou duas vezes: “infelizmente não posso fazer nada!”. Saí com um gosto de desgosto na boca.
NO LAVA-JATO
Passei no estacionamento onde guardo meu carro. O dono, Edmilson Antônio Gonçalves, o Dida, estranhou quando eu descarreguei as embalagens de livros que não consegui doar perto do espaço em que ele deposita material reciclável. Perguntou. Eu respondi. E ele: “Pode deixar aí, mas me dê autorização para que na primeira oportunidade eu leve ao CAIC”. Uau! De quem eu esperava exatamente esta mesma frase-possibilidade, não tive nada. De um moço simples, ex-sapateiro que tenta levantar sua pequena empresa dedicando dez ou mais horas por dia a seu ganha-pão, a ouvi. Ainda há esperança, porque os seres humanos são diferentes. Muitos, felizmente, para melhor...
PEQUENOS GESTOS
Faltam. Estão em extinção. O interesse manifestado por Dida, a exemplo. Ele não pensou em me servir, apenas. Pensou no que crianças menos favorecidas perderiam, se os livros fossem para o lixo. Livros que – talvez – significassem para eles, a última chance de adquirirem gosto pela leitura e pelo saber. Dida foi um pouco o que significaram as professoras do início de minha vida. Antenado. Ciente do que pode significar a parcela de colaboração que estava dando à melhoria da consciência crítica da comunidade em que vive.
GRANDES PESSOAS
Na maioria das vezes, a diferença está em empreender o pequeno gesto. Sair de si em benefício do outro. Estes livros que pretendi doar teriam destino diferente não fosse o despretensioso gesto do moço simples. E são os pequenos gestos que revelam grandes pessoas.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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