A ética e a etiqueta


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À primeira vista, etiqueta parece o diminutivo de ética. Seria mais ou menos uma pequena ética, um conjunto de regras de tamanho menor. Nesse aspecto, até que as duas palavras aproximam-se mesmo no significado. Mas só em teoria, porque na prática, na vivência cotidiana, a situação é bem outra. Aquele conjunto de normas que guia o comportamento e os costumes das pessoas, na maioria das vezes, só tem validade quanto a direitos individuais. Quando o lado da moeda vira, ou seja, em se tratando de deveres, pouca gente segue a etiqueta. Ética então, se esvai muito antes da etiqueta fracassar de vez. A etiqueta não passa de um verniz social. Fica muito próxima da boa educação. O momento atual é pródigo em mostrar gente cheia de boas intenções. Há um batalhão nas ruas, em lugares de concentração pública, interpelando a todos indiscriminadamente. Isso quando não se recebe em casa mesmo a visita (visita???) de alguém cheio de sorrisos, apertos de mão e tapinhas nas costas. E ainda por cima, interessando-se pelos seus problemas, chegando mesmo a encontrar soluções para todos eles. Tudo isso, como quem não quer nada, sem pretensão alguma. É apenas “cordialidade nata!” Proximamente, não tenha pressa, a pretensão de tanta etiqueta vai surgir no horizonte. Aguarde o momento das convenções partidárias, para homologação de nomes a disputar uma vaga na Câmara Municipal, em outubro. Quem agora anda atravessando a rua, com a única intenção de pegar na sua mão, do outro lado da calçada, e ainda querendo saber como vai a sua família, principalmente seu pai, coitado, que morreu faz dez anos, este vai ter seu nome na enorme lista de candidatos a vereador. Depois da homologação, a campanha será ostensiva. O sujeito estará cheio de ética e etiqueta no momento da abordagem. Vai também colocar muita gente trabalhando pela sua eleição ou reeleição. Tudo dentro da ética, mercadoria que não falta a candidato nenhum, quando pede voto. Todos eles visam o bem comum. Falta explicar, comum a quem? Pois, tudo para todos, em igualdade de condições, somente em épocas pré-eleitorais. Depois das eleições – você vai perceber – a etiqueta desaparece. Aquela atenção de agora é recolhida. Ela não passa de uma encenação. Por isso, todo cuidado acaba sendo pouco, porque toda interpretação, que não seja artística, na verdade, é mesmo uma tremenda falta de ética em todos os parâmetros. Ainda mais se ela ocorrer para tapear pessoas de pouca informação, com o intuito único de se conseguir votos. O que se espera, nestes pouco mais de quatro meses, é que o eleitor aprenda a ser ético na escolha de seu candidato. Existindo isso de sua parte, provavelmente a falsa etiqueta, empregada pelos postulantes a uma vaga na Câmara Municipal, não terá força capaz de formar um quadro como o da atual legislatura, que não se salva nem com as raras exceções existentes. Antônio Araújo Professor de redação. E-mail: tonin.palavras@uol.com.br

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