Um dia depois de ver seu nome integrar a lista de convocadas da seleção brasileira de futebol feminino para a copa da Paz, Daiane Rodrigues teve momentos de glória. Aos 21 anos, a garota foi o centro das atenções. Deu entrevistas e até chegou atrasada ao treino do time local. "O assédio está grande", disse ela ao deixar a sede da Rádio Difusora, onde foi entrevistada por Éverton Lima.
Daiane já foi convocada para a seleção principal, mas a proximidade com os Jogos Olímpicos transformou esta na maior de suas conquistas. "Meu objetivo é disputar a olimpíada. Por isto tenho de ir bem agora, mostrar qualidade e ficar no grupo", declarou.
A jovem atua tanto no meio-campo quanto na lateral-direita. Vive a terceira temporada em Franca. Enderson Barbosa, técnico do time local, a coloca como uma das mais importantes jogadoras da equipe na campanha que resultou no acesso à primeira divisão estadual. A alegria pela convocação atingiu a todos no time. Tanto que Daiane deve ser poupada do próximo compromisso do time, sábado, às 15 horas, no Lanchão, contra Lorena, um dos sacos de pancada do Estadual. "Temos um elenco capaz de suprir sua ausência. Isso evitaria que uma jogadora desavisada de Lorena lhe desse uma entrada mais dura", comentou o treinador.
Daiane e mais 23 jogadoras iniciam o treinamento com o técnico Jorge Barcellos, na Granja Comary, em Teresópolis, no próximo dia 26. Até o dia 10 de junho, a equipe nacional, que não terá Marta e outras atletas que atuam na Europa, só treina para então viajar para a Coréia do Sul. Entre 15 e 21 de junho será jogada a Copa da Paz. O grupo brasileiro, o B, tem as seleções da Itália, EUA e Austrália.
Comércio da Franca - Como suas companheiras reagiram à sua convocação para a seleção brasileira?
Daiane Rodrigues - Houve uma reação de alegria. Deu para ver que as meninas torcem por mim. Isso é bom, pois quanto mais pensamento positivo, melhor.
Comércio - Qual sua expectativa na seleção?
Daiane - Fazer um bom torneio na Copa da Paz e conquistar uma vaga para a olimpíada. Há meninas muito boas, mas sei da minha qualidade. Já que fui convocada tenho de merecer estar lá. Hoje, meu maior objetivo é ir à olimpíada. O segundo é conquistar o título do Paulista pela primeira vez.
Comércio - É verdade que sua relação com o futebol vem do berço?
Daiane - Sim. Tenho três irmãos e um deles, o de 23 anos, joga na Iugoslávia. Ele foi campeão da segunda divisão do país. Além disso, meus pais trabalham no Clube Paulistinha, de São Carlos. Até meu avô foi jogador. A paixão é mesmo de família.
Comércio - Quando você percebeu que a bola faria parte de sua vida?
Daiane - Isso veio da relação com meu irmão. Ele saía para jogar bola e eu ia atrás. Era só eu de menina no meio da molecada. Não teve como evitar. Além disso, até os 11 anos morei em uma chácara onde havia uma quadra ...
Comércio - O que você prefere: quadra ou campo?
Daiane - O campo, pois tem muito mais espaço para jogar. No salão é tudo mais rápido.
Comércio - Futebol feminino ainda sofre com o preconceito?
Daiane - Diminuiu, mas tem sim. Há situações que não gosto de lembrar. Uma vez eu jogava em São Carlos e perdi um pênalti. Fui xingada pela torcida e com nomes impublicáveis. Chorei muito e meu pai, que era boleirão (gíria para definir alguém envolvido com o mundo do futebol), foi quem me levantou a cabeça. Ele disse que eu deveria enfrentar tudo se quisesse seguir carreira.
Comércio - O que você prefere: dar o passe decisivo ou marcar um gol?
Daiane - É bom saber que dei um passe importante e ajudei meu time, mas a melhor coisa é mesmo fazer um gol. Sair comemorando com a torcida.
Comércio - Você é baixinha (1m61 e 59 quilos). Não tem dificuldades para enfrentar jogadoras maiores?
Daiane - Não. No Brasil, a característica é esta. Contra outras seleções é comum encontrarmos meninas de porte físico superior.
Comércio - Isto não intimida?
Daiane - Não. Aqui usamos a habilidade. Fora o que vale é o tranco e a força física.
Comércio - Já teve convites para jogar fora do Brasil?
Daiane - Sim. Eu poderia ter ido para jogar em uma universidade dos EUA. Meu pai falou que eu ficaria longe de casa, sem saber como seriam as coisas. Preferi ficar.
Comércio - Você vive do que ganha no futebol feminino?
Daiane - Hoje, sim. Graças a Deus. Quando exagero um pouco nas contas peço ajuda para meu pai. De qualquer forma consigo dar conta do meu sustento. Lembro do primeiro pagamento, em Araraquara (R$ 150). Hoje tenho salário ...
Comércio - Quanto?
Daiane - (Ela ri e não fala. Apenas revela morar em um apartamento junto com outra jogadora do time e ajudar seus pais). Eu queria ser mais independente e neste ano foi possível.
Comércio - O treinador quer poupar você do jogo de sábado (15 horas, no Lanchão, contra Lorena pelo Paulista). Você ficou chateada?
Daiane - Um pouco, mas sei que é o melhor para mim, pois devo chegar 100% na seleção.
Comércio - Quantos gols marcou neste ano?
Daiane - Neste ano ainda não marquei no Paulista. É complicado, mas sempre participo dos lances de gol da equipe. De qualquer forma estou ansiosa para marcar.
Comércio - Qual o mais bonito de sua carreira?
Daiane - Isto faz tempo. Em 2001, nos Jogos Regionais, eu driblei duas meninas e chutei de fora da área. A bola bateu em duas traves antes de entrar no gol.
Comércio - Quanto terminará o jogo de sábado?
Daiane - Nós sabemos que nosso adversário (Lorena) perdeu todos os jogos no Paulista, mas treinamos muito durante a semana, pois elas deverão vir fechadinhas. Como sou confiante, digo que ganharemos o jogo de uns 8 a 0 porque minha defesa não toma gol.
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