Ontem foi dia de Santo Ivo. Ele nasceu em 17 de outubro de 1253, em Tréguier, na Bretanha, e morreu a 19 de maio de 1303, na mesma localidade. Filho e neto de nobres, foi sagrado cavaleiro aos 14 anos. Desenvolveu seus estudos com os maiores mestres de Teologia e Direito Canônico. Foi aluno de Santo Tomás de Aquino e São Boaventura. Bacharelou-se também em Direito Civil.
Dedicou-se a estudos profundos das Escrituras, Velho e Novo Testamento. Iniciou, então, uma batalha íntima que durou oito anos até tornar-se franciscano e doar aos pobres seus objetos pessoais de valor. Adotou inteira e totalmente a vida ascética e fraterna franciscana.
Transformou o solar que recebera dos pais em hospital, asilo para velhos e crianças abandonadas. Lá estabeleceu também seu escritório para atender aos pobres e desamparados. Não houve advogado de mais renome nem pessoa mais estimada em toda a Bretanha. Por sua caridade, ganhou o título de advogado e protetor dos pobres.
Santo Ivo é considerado também patrono de todos os estudantes de Direito, defensores públicos, funcionários da Justiça, profissionais que se relacionam com a Justiça, procuradores, Ives, Ivos, Ivones e Ivans. Ficaram famosas as suas defesas, muitas pelo ineditismo, inteligência e habilidade. Uma delas mistura lenda e realidade: um homem rico e poderoso teria acusado um vizinho pobre e humilde de beneficiar-se dos bons odores de sua quente, cheirosa e apetitosa cozinha.
Segundo o acusador, ficar à frente da janela e aspirar o “perfume” embriagador dos acepipes, o prejudicava. Durante o julgamento, dada a palavra ao Doutor Ivo, este tira da bolsa várias moedas de ouro e de prata, reúne-as na concha da mão, mostra-as a todos os presentes, especialmente ao queixoso e ao julgador, em seguida agita-as com força ao redor e por todo o ambiente, demorando-se mais junto aos ouvidos daquele e deste e diz: “Este homem aspirou o odor de seus alimentos! Pois paga com o tinido destas moedas! O som puro paga o bom odor!”
Tenho saudade dos contos que o meu pai e os mais antigos contam sobre o exercício da advocacia e da justiça. Antigamente os operadores do direito acreditavam mais em si, tinham respeito e davam respeito. Hoje, isso ainda existe, mas, infelizmente, nem todos honram o título de bacharel. Para muitos é apenas mais uma profissão, um bico, mas esquecem os que pensam e agem desta forma, que a advocacia é função essencial à Justiça. É garantia constitucional.
Cabe aos operadores da Justiça salvaguardar a dignidade inalienável do indivíduo. Da minha parte, na sala de aula, nos corredores do Fórum, no dia-a-dia, tenho incentivado os amigos para que exerçam a profissão com dignidade, exigindo a validade das prerrogativas que vêm sendo retiradas lentamente e acabam com o livre e determinado exercício profissional.
Tomara que o Dia de Santo Ivo, comemorado ontem, tenha servido para reflexão sobre as nossas condutas profissionais que devem ser exercidas com integridade ética, moral e principalmente com a valorização da pessoa humana.
E, se você, profissional do ramo, não sabia de Santo Ivo e muito menos que é ele o patrono dos operadores do Direito, agora não tem mais perdão.
Acir de Matos Gomes
Advogado, corretor de imóveis, adesguiano e palestrante
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