Qualidade de mais, público de menos


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Apresentações pontuais, ótima qualidade técnica e diversidade de atrações foram os pontos altos da Virada Cultural Paulista, evento que marcou o fim de semana em Franca. O lado negativo foi a pouca participação do público, o que não comprometeu a realização de nenhuma das apresentações. Ao todo, segundo a Secretaria de Estado da Cultura, das 18 horas do sábado às 18 do domingo, 23 mil pessoas passaram pelo palco principal, no Poliesportivo, e pelo Teatro Municipal. A abertura da Virada, às 18h30, coube ao músico Diego Figueiredo. No palco montado no Póli, desfilou seus acordes nada econômicos para não mais que 300 comportados espectadores, número que foi crescendo aos poucos. Após uma hora de apresentação, por onde passaram Disparada, de Jair Rodrigues, e Odeon, de Ernesto Nazaré, entre outros chorinhos memoráveis, Figueiredo despediu-se de seu show família, mandando um recado aos empresários: “Vamos investir em cultura. Vamos abrir os olhos para a produção cultural”, disse ele. Às 19 horas, no Teatro Municipal, os irmãos Maurício e Marcelo repassavam seus 10 anos de carreira com a mais fina música popular brasileira. Depois deles, ainda no teatro, foi a vez do balé da cidade de São José do Rio Preto encenar a peça “Alma Aprisionada”, retratando a vida da poetisa Stela do Patrocínio, que passou mais de 30 anos internada em um hospital psiquiátrico. Perto de 22h30, com um público maior e diferente daquele da abertura, entra no palco principal o Samba da Laje. À primeira vista, os desavisados poderiam pensar se tratar de mais um grupo de pagode como esses que inundam as FMs e canais de TV. Mas o Samba da Laje surpreendeu o público com o sambão partido alto de Paulinho da Viola e Beth Carvalho, entre outros compositores e intérpretes. Pontualmente às 23h30, o Teatro Popular Solano Trindade, de Embu das Artes, entrava pela lateral do palco no Poliesportivo para caminhar em meio ao público. A apresentação era de maracatu, dança de inspiração africana, criada em Pernambuco. A batida dos tambores, os trajes coloridos e a alegria do ritmo contagiou a platéia. Solano Trindade (1908/1974) é tido pela crítica como o maior escritor negro brasileiro em todos os tempos. Integrante do grupo que leva o nome do bisavô, Zinho Trindade disse que se apresentar em lugares onde a cultura popular tem outras características reforça o compromisso do grupo de levar e mostrar a arte que veio com os escravos. A intervenção do maracatu foi rápida; perto de 30 minutos. Em seguida entrou em cena o sambista Jorge Aragão, o mais aguardado da noite. Pelo que esperava, o show poderia ser melhor. A voz grave do cantor e falta de correção de ajuste do som fizeram com que as pessoas ouvissem, em alguns momentos, um barulho contínuo, impedindo que se entendesse a letra. Aragão também não foi dos mais simpáticos com o público. Apesar dos deslizes, foi um bom show. LOTAÇÃO ESGOTADA Após a entrada de Jorge Aragão, o destino era o teatro municipal, com a apresentação de Sá, Rodrix e Guarabira. Para surpresa geral, 150 pessoas, além das 420 que conseguiram lugar nas poltronas, assistiram ao show apertados pelos corredores do Teatro. Foi uma apresentação impecável. O humor seco de Zé Rodrix, que havia deixado a formação original do grupo em 1973, quando a maior parte do público sequer havia nascido, contagiou a platéia. Juntos, os três conversaram, fizeram graça, interagiram com o público e mostraram uma afinação, ali, no tête-à-tête, que sempre foi marca dos três. Separados, pegaram coisas particulares, que gostam de cantar. Nessa hora, quem emocionou foi Guarabira com Casaco Marrom, dos Golden Boys. Mais festival da Record, impossível! Depois deles, quem ocupou o palco foi o gaitista Robson Fernandes, um músico de blues de primeira grandeza, mais conhecido lá fora, infelizmente. Conseguiu fazer com que o teatro ficasse lotado até as 5 horas. No domingo, as principais atrações começaram às 15 horas, no Poliesportivo. A banda de, teoricamente, forró universitário Bicho de Pé, nome improvável para um grupo tão bom, tinha à sua frente não mais que 200 pessoas. Apesar dos esforços da cantora Janaína Pereira, e do ótimo sanfoneiro Olívio Filho, poucos se animaram. Enquanto isso, a reportagem deu um pulo no teatro para acompanhar a apresentação da cantora, instrumentista e compositora Tatiana Parra, elogiada por Diego Figueiredo que ainda fez um balanço pessoal do que foi a Virada Cultural. “Estamos muito acostumados com alguns tipos de cultura, por isso eventos assim deveriam se repetir várias vezes”, disse. “Uma programação com essa qualidade, a organização séria e pontual e essa diversidade poderia animar a administração municipal a realizar coisas desse tipo. Eu fiquei muito feliz de participar”. A Virada Cultura de Franca terminou presenteada por um belo domingo de sol. Britanicamente às 17 horas, os roqueiros gaúchos do Cachorro Grande entram no palco segurando suas latinhas de cerveja. Perto de 2 mil pessoas - contando-se crianças, bebês, senhoras e senhores - pularam e cantaram com o rock audível do grupo, que começou a se aventurar ainda nos anos 90, tempo insuficiente para deixar de lado o forte sotaque dos pampas. Assim como começou, terminou a Virada Cultural Paulista: sem incidentes, sem confusão, com boa programação e boas atrações. Como se trata de um evento praticamente político, não é garantido que se repita. Para o presidente da Feac (Fundação Esporte, Arte e Cultura de Franca), Reginaldo Emídio, o resultado da Virada foi positivo. "Por ser a primeira, estávamos apreensivos com alguns shows, principalmente aqueles da madrugada. Mas foi uma surpresa ver a participação do público". Segundo ele, coube à Prefeitura os investimentos em estrutura, como a montagem do palco e parte da divulgação. Ele não revelou quanto a administração investiu.

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