Piada pronta


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Um incidente e seus desdobramentos na última sessão da Câmara Municipal de Franca traduzem com exatidão a mediocridade sem precedentes da atual legislatura. Terça-feira, 13 de maio. Pauta magra, nenhuma discussão relevante, a sessão presidida pelo médico Joaquim Pereira Ribeiro (PSB) se aproximava do fim. Faltava um único assunto a ser discutido e votado. De autoria do vereador Marcelo Mambrini (PMN), o projeto, se aprovado, restringiria o comércio de produtos e serviços nos corredores e na sala de sessões. Silas Cuba (PT), 1º secretário, começou a ler o projeto. Mambrini aproveitou para ir ao banheiro. Foi o bastante para que Gilson Pelizaro (PT) solicitasse ao presidente o adiamento da discussão por cinco sessões. Joaquim submeteu o pedido ao plenário. Todos concordaram com Pelizaro. O presidente perguntou se ninguém tinha mais nada a acrescentar. Em silêncio, todos continuaram sentados. A discussão foi adiada, a sessão encerrada. Ao voltar, Mambrini encontrou o plenário já com poucos colegas. Tentou protestar. Ninguém deu ouvidos. Também ninguém corou de vergonha. Tem mais. Irritado, Mambrini ficou resmungando. Segundo ele, um servidor da Câmara, José Granzotti, teria então passado ao seu lado e o encarado com “olhar ameaçador”. Inconformado, registrou boletim de ocorrência contra Granzotti. Que, a seu modo, já resolveu o problema: durante entrevista à rádio Difusora, prometeu freqüentar as sessões de óculos escuros, para que Mambrini não se aborreça com seu olhar. Tudo no episódio é ridículo, a começar pelo projeto. Imaginar que vereadores gastam seu tempo e nosso dinheiro discutindo projetos como este de Mambrini é desesperador. Ao invés de debater o futuro da cidade, o nível dos impostos, os gastos públicos, a qualidade da saúde, a dívida da Santa Casa, a gestão municipal, o problema das casas do Parque do Horto, o recapeamento, perdem tempo elaborando projetos para decidir quem pode ou não vender cocada, pizza, amendoim, perfume, lingerie ou oferecer serviços para preencher declaração de imposto de renda dentro das dependências da Câmara. Se Joaquim Ribeiro tivesse o mínimo de pulso teria ele mesmo resolvido a questão. Autoriza ou não. Pronto. Levar uma questão tão pequena ao plenário não é democracia. É perda de tempo. Depois, há que se considerar a falta de educação mínima dos “nobres” vereadores. Aproveitar uma ida ao banheiro do autor do projeto para, na ausência dele, pedir o adiamento da discussão, é de uma descortesia singular. O pior é que o protagonista da iniciativa, Gilson Pelizaro, se orgulha do que fez. Parece achar lindo ter encontrado uma brecha regimental para adiar a discussão. É triste constatar que nenhuma voz se levantou contra a iniciativa do petista. Não houve um só colega capaz de lembrar aos demais a molecagem que cometiam, de pedir que esperassem o retorno de Mambrini. Muito mesmo o presidente, Joaquim Pereira Ribeiro. Por fim, há o “olhar furioso” do servidor que “intimidou” Mambrini. É de chorar imaginar que um sargento reformado da Polícia Militar, eleito pelo voto popular para nos representar na Câmara de Vereadores, tenha medo do “olhar” de um servidor público. E é de chorar mais ainda constatar que o Legislativo francano é tão desmoralizado que um servidor é capaz de zombar de um vereador numa entrevista sem qualquer constrangimento, sem ruborizar. José Simão, colunista da Folha de São Paulo, consagrou a máxima de que “o Brasil é o País da piada pronta”. Sei não, mas não me surpreenderia descobrir que ele se insispirou na Câmara Municipal de Franca para cunhar a frase que virou título de livro. Por ali, sobram premissas para sua conclusão. CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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