Mudar


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Tento não alterar o meu humor por causa de erros alheios, pois os meus próprios já me deixam suficientemente abatido. Falar é fácil. Dia desses saí para voltar rapidinho. Fiquei preso no trânsito; meia hora parado na avenida bloqueada em razão de uma blitz, bem no meio da tarde. Dá pra sorrir numa dessa? Polícia precisa é liberar o tráfego, não bloquear. Imaginem o transtorno! Compromissos inadiáveis, coisas urgentes a fazer, consultas médicas marcadas meses antes, pessoas passando mal... A fiscalização policial é necessária e útil, mas não assim. Os órgãos estatais existem para desembaraçar as coisas, a fim de que fluam o mais próximo possível da normalidade; se não dá para fazer nada para melhorar, então que não se faça para estragar ainda mais, não se transforme em caos o que normalmente já é complicado. E a pedofilia na igreja? Não está na hora de liberar os padres do celibato e do voto de castidade? Sou daqueles que tentam enxergar o efeito prático das ações, e entendo que tal liberação poria fim à pedofilia, essa prática vergonhosa dentro da igreja católica. Há lógica em privar um homem do direito sagrado e natural de amar uma mulher e com ela construir uma família? Para exercer o sacerdócio é necessário perverter a natureza? Dedicar a vida a Deus não pode consistir em isolar-se do mundo. Pelo contrário. É vivendo no meio dos problemas mundanos, expondo-se às tentações, que se pode adquirir elevação espiritual. O Supremo Tribunal Federal protela decisões importantes. A Justiça existe para solucionar conflitos, e isso ela faz julgando os casos que lhe são submetidos à apreciação. Mas quanto tempo será preciso esperar o julgamento de questões como a utilização de células-tronco, o poder investigatório do Ministério Público e outras? Não importa se a decisão vai ser “assim ou assado”, mas ela tem de vir. Se o órgão máximo do Poder Judiciário não se posiciona, como ficam as outras instâncias? Bem, façamos um “mea culpa”. As instituições precisam melhorar. Porém, e nós? Qual o nosso grau de civilidade? O que temos feito para mudar este mundo com o qual não estamos satisfeitos? Preocupamo-nos com o interesse coletivo nas nossas ações ou nos atemos às nossas conveniências individuais? Temos responsabilidade social ou cuidamos apenas do interesse próprio? Fazemos, efetivamente, o que pregamos ou permanecemos na retórica? Falar, meus caros, até papagaio fala. Há muitos abnegados (nem tudo está perdido), mas tem muitas pessoas dirigindo entidades de classe, de bairros, clubes, associações, etc. interessadas apenas em beneficiar-se pessoalmente, política e financeiramente. Por que tantas dessas pessoas se perpetuam no comando? Não é por altruísmo não, é meio de vida. Fins sociais que nada. A sociedade reclama dos malefícios das drogas, mas sustenta o tráfico. Se se vende tanto entorpecente, quem é que compra? Seres de outros planetas? É óbvio que não. Enfim, só culpar os outros não resolve. Não é caso de esperar por alguém que chegue e nos diga o que precisamos fazer, pois sabemos muito bem. Cada um tem de cumprir a sua parte em prol do todo. Para mudar, nós precisamos ter consciência das conseqüências dos nossos atos, rever nosso papel neste mundo, entender que podemos ser melhores e, sobretudo, agir de forma mais condizente com a inteligência que Deus nos deu. Paulo Pereira da Costa Promotor de Justiça, autor de Pensando na Vida (Martins)- paulopereiracosta@uol.com.br

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