Estúpidas, sem sentido, desnecessárias, dispendiosas para os cofres públicos, além de demonstração de que voltamos aos tempos do Império Romano, em que os prisioneiros, como um troféu, eram carregados em gaiolas e expostos à execração pública, é o que aconteceu com o casal Nardoni, acusado de assassinato da filha e enteada, nas idas e vindas do domicílio para a prisão ou vice e versa.
Já naquele tempo, quando o povo estava insatisfeito com os governantes, os imperadores presenteavam-no com a apresentação de um circo, que consistia em soltar no picadeiro escravos e outros prisioneiros de guerra, além de criminosos, ou para lutarem entre si até a morte ou para serem devorados pelos leões.
Na maioria das vezes, quem decidia sobre a vida ou morte dos mesmos era o próprio povo através da exibição do dedo polegar para cima ou para baixo.
Não vimos nenhuma diferença entre esta barbárie e o que se está fazendo com o casal referido, que por enquanto é apenas acusado de um crime hediondo que realmente chocou muita gente.
Antes destes fatos, assistimos embevecidos as carreatas aéreas do Fernandinho Beira Mar que, por ser da classe A, não ficou exposto ao julgamento nem aos xingamentos do povo, sendo mantido sempre em um plano superior com tratamento vip. Quantas pessoas inocentes e famílias foram destruídas pelas drogas e armas que ele distribuiu?
Será que se Jesus Cristo descesse novamente na Terra e lhe fosse dado presenciar estas cenas, agiria da mesma forma como fez com Maria Madalena? Será que faria a mesma pergunta que fez àqueles que julgaram, condenaram e apedrejavam a mulher adúltera?
Vocês acham que a pergunta “aquele que nunca pecou, que atire a primeira pedra”, se referia apenas a adultério?
Será que a nossa indignação e revolta não é conosco mesmo pela nossa omissão diante de tudo o que acontece no mundo ou para esconder a nossa vergonhosa covardia? Será que não transferimos tudo para aqueles que de uma forma ou outra erram e são escolhidos como “bois de piranha”?
Foi o crime dos Nardoni o único crime brutal a que assistimos e que merece toda essa repulsa e condenação prévia, sob a luz dos holofotes da mídia clareando nossas bocas sedentas e babando sangue?
Que me perdoe a menina morta, mas, se pensarmos em quantas Isabellas sofreram a mesma e dolorosa morte, em quantos inocentes foram mortos nestas guerras violentas e sem sentido apenas para reafirmar territórios ou ideologias, por executores que nós mesmos escolhemos pelo voto popular e que além de se apropriarem indevidamente de bens e valores públicos, provocam verdadeiros massacres em nome e para a manutenção do poder, acredito que da carreata deveríamos também fazer parte, não como indignados acusadores, mas como acusados e previamente condenados por crimes contra a humanidade.
Odorico Antônio Silva
Advogado
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