Eles estão em toda parte e não é raro deparar com esse tipo de gente nos lugares onde existem filas, onde necessário seria aguardar o próprio tempo e a própria vez, exercitando a cidadania que requer paciência e, acima de tudo, educação.
Vistos como espertalhões, matreiros, manhosos, folgados, caras-de-pau e coisas do tipo, são dados à prática infame de “furar filas”, péssima conduta que revela comportamento antiético, deseducado e até mesmo considerado por profissionais de psicologia como grave falha de caráter. É aquela coisa do indivíduo que quer levar vantagem em tudo. Seja na fila do banco, trânsito, banheiro, cinema, shows e, ainda, no almoço na casa da mamãe, da vovó ou da sogra no domingão, não tem jeito, o bichinho “fura-filas” sempre estará à espreita para agir, acometido desse distúrbio compulsivo em burlar, tirar proveito, ter a sensação do logro vantajoso.
Um amigo meu chegou a dizer que se fosse deputado federal proporia uma lei para os “fura-filas”, tornando a prática “contravenção penal”. Não apenas gostei da idéia. Mais do que isso, pus-me a imaginar como seria... Daí, talvez, chegaria o dia em que entraríamos nos bancos, por exemplo, e veríamos escrito numa placa de advertência: “a lei número tal, em seu artigo tal, determina: Art. 1º - Fica proibido furar filas em lugares públicos ou privados. Parágrafo Único - A pena prevista será aumentada em 1/3 para os casos de simulação de gravidez; tomar emprestadas crianças de colo; declarar ter mais de 60 anos sem ter; fazer uso de status, prestígio social ou “carteiradas”, etc., etc., e tal.
Ainda imaginando: se o bichinho “fura-filas” não pudesse mais “furar filas” por causa da lei, o que faria ele? De novo, tentei imaginá-lo, dono dos perfis de comportamento que o transformaram em “fura-filas, como agiria ao conferir o troco da padaria e constatar que no lugar de uma nota de cinco reais recebeu uma de dez equivocadamente; será que devolveria o dinheiro recebido a mais para o caixa? Ou então, andando o bichinho pela rua e vendo cair algo (aparentemente de valor) da bolsa de alguém, correria para avisar o distraído transeunte sobre o que acabara de perder? Ou ainda, dirigindo pela cidade ao perceber que o carro à frente encostado por falha mecânica é de um amigo, se coloraria à disposição para oferecer ajuda?
Vamos lá. No primeiro caso ele não devolveria o troco de jeito nenhum. Acharia uma desculpa que justificasse a conduta; jogaria a culpa no caixa que deveria ter prestado mais atenção - sensação sentida: ganhou o dia! Segundo caso: o bichinho certamente daria aquela agachadinha estratégica e então pegaria o objeto perdido, enfiaria em algum lugar, respiraria fundo, olharia para os lados como um cão temeroso, pois a emoção do ato lhe garante medo e agitação - sensação sentida: eu tenho sorte! No último caso, como é característico do bichinho, fingirá estar sintonizando o rádio do seu carro, ou olhar para o lado oposto, para “não ver” o amigo precisando de ajuda com o carro - sensação sentida: sou muito esperto!
Está claro que falhas de caráter se repetem sempre. Não sabe o bichinho “fura-filas” que está passando pela vida estupidamente, ignorando a ética, que é o cultivo de valores bons para o indivíduo e a sociedade.
Ricardo Veríssimo Júnior
Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e conselheiro do Comércio
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