Discute-se no Congresso Nacional a proibição (ou não) de propaganda de cervejas em horário nobre. Descobriu-se, dias atrás, que quase 17% dos parlamentares têm interesse na manutenção dos anúncios porque recebem ajuda de campanha das cervejarias ou como donos de veículos de comunicação têm lucro ao veicular a publicidade. Mas não é na veiculação que se encontra o xis do problema. Está no tipo de propaganda que se faz do produto. E não só para a cerveja, mas para toda mercadoria anunciada.
É inaceitável o anúncio espetacular dando a entender que o bebedor de cerveja conquista posição social, lindas mulheres ou é transportado para locais paradisíacos. Esse perigoso abuso já foi cometido na propaganda de cigarros hoje banida e, na de brinquedos que sugeria um inanimado boneco de plástico como super-herói de muita ação, e ainda ocorre no ramo de medicamentos e afins que, segundo a propaganda inescrupulosa, curam de tudo.
A classe dos publicitários, com a devida seriedade, tem tentado resolver os problemas via auto-regulamentação, mas muito abuso ainda escapa ao controle e chega a esbarrar no Código Penal. Em qualquer país sério, muito do que se veicula publicitariamente levaria para a cadeia os autores dos anúncios e até os produtores das mercadorias anunciadas.
No caso da cerveja bastaria anunciar suas marcas e características, sem toda aquela fantasia criada por artistas e formas das mulheres empregadas no anúncio. As celebridades e beldades poderiam continuar o trabalho, mas com o cuidado de não conduzir ao irreal. Poderiam alertar para os riscos do consumo excessivo.
Seria hipocrisia ignorar o aumento do consumo de bebidas alcoólicas no Brasil, especialmente a cerveja. O público feminino engrossa as estatísticas e até as crianças bebem indevidamente, pois isso é proibido por lei, mas poucos (principalmente os familiares) parecem saber.
É importante exigir que a mensagem seja verdadeira. Jamais aceitar que o embriagado fique atraente, o automóvel voe, o perfume transforme ou o remédio cure como um passe de mágica. O meio de comunicação é um eficiente multiplicador e, como tal, seu uso tem de ser responsável. Não pode veicular mentiras, nem meias-verdades. Os senadores e deputados deveriam, em vez de proibir a propaganda, fazer uma lei estabelecendo a prisão em flagrante e inafiançável àqueles que se envolver em acidente ou qualquer outro distúrbio, movidos por álcool ou droga.
Utilizado com responsabilidade, o meio de comunicação pode ajudar a construir um futuro melhor. Mal empregado, é capaz de destruir o que já foi construído. A escolha é nossa...
Dirceu Cardoso Gonçalves
Tenente, diretor da Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo
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