Dois investigadores chegaram ontem cedo em uma fábrica de calçados do Distrito Industrial, em Franca, e pediram ao proprietário para falar com a sapateira Suellen Barbosa Rodrigues, 20. Ao revelarem o motivo da visita, causaram choque e indignação em toda a cidade. Grávida de três meses, a garota estava sendo presa por envolvimento na morte do próprio pai. Segundo a Polícia Civil, ela foi a mentora do roubo que culminou com o assassinato do comerciante Severino Rodrigues, 37. Suellen alegou que a intenção era apenas levantar dinheiro para pagar um traficante que estaria fazendo ameaças à sua família. A versão não convenceu os policiais.
Suellen morava com os pais e dois irmãos em um casa simples do Jardim Luiza, bairro popular da zona norte da cidade. Desde o dia 25 de março, trabalhava como auxiliar de prancheamento em uma indústria de calçados. Severino vendia retalhos de couro para sustentar a família. No dia 21 de fevereiro, foi atraído até uma chácara situada nas margens da estrada que liga Franca a Ibiraci (MG). Os assaltantes haviam conseguido o número de seu celular com a filha dele e armaram uma emboscada dizendo que pretendiam vender raspas de couro.
A vítima chegou à chácara com um filho de 13 anos. Ao descer do carro, um Versailles vinho, para tocar o interfone, foi rendida pelos assaltantes que a aguardavam do lado de fora. Levou cinco tiros na frente do menor e morreu na hora. Os criminosos levaram R$ 200.
Na terça-feira, 6, a equipe de homicídios da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) prendeu Ranieri Soares, 22, e Tiago Ribeiro, 23. Apontado como autor dos disparos, Tiago alegou que teria se assustado com um movimento brusco de Severino. Foi durante o depoimento dos acusados que a Polícia Civil descobriu que a filha da vítima teria planejado o roubo. “O Ranieri confirmou o envolvimento dela e, inclusive, nos disse que a Suellen fez o convite para que eles participassem do roubo. Pretendiam dividir o dinheiro”, contou o delegado Márcio Garcia Murari.
No mesmo interrogatório, Ranieri contou aos investigadores que seu primo, o borracheiro Alex Sander Rodrigues Vieira, 26, os haviam levado de carro ao local para fazer o assalto. Ele negou saber qual era a intenção dos dois. Partiu do celular dele o telefonema que deram para a vítima dez minutos antes do crime. A Polícia Civil manteve o teor do depoimento sob sigilo e pediu a prisão temporária de Suellen e Alex à Justiça na quinta-feira. A solicitação foi aceita.
Com a ordem judicial em mãos, os investigadores Amato, Lucas e Vinícius cumpriram os mandados de prisões em ações distintas ontem. Às 7 horas, Alex foi preso quando escovava os dentes em casa, no Jardim Portinari. Duas horas depois, foi a vez de Suellen ser detida na fábrica. O proprietário disse que ela tinha comportamento normal e que só na semana passada contou a um colega que o pai havia sido assassinado. Não comentou sobre seu envolvimento. “Sempre analiso a ficha criminal dos funcionários, mas não havia nada contra ela”, comentou o empresário.
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Levada à sede da DIG, a acusada confessou com detalhes sua participação no latrocínio. Segundo a polícia, não aparentava arrependimento e se comportou de maneira bastante fria. “Foi de estranhar sua tranqüilidade. Encarou a morte do pai como uma certa fatalidade. Alegou que um tio estaria devendo a traficantes e que sua família vinha recebendo ameaças. Por isto, resolveu tramar o assalto contra o próprio pai. Para nós, a versão por ela apresentada é um pouco nebulosa”, disse Murari.
Suellen concedeu entrevista exclusiva ao Comércio e afirmou que a intenção era apenas conseguir o dinheiro para saldar a suposta dívida. Revelou estar grávida do namorado, que não conhecia Tiago e Ranieri. Uma conhecida teria indicado a dupla de assaltantes para ajudá-la no plano macabro. No fim da noite, foi colocada em um camburão e levada para o presídio feminino de Batatais. Está com a prisão temporária decretada por 30 dias, mas o delegado pedirá a preventiva de todos os envolvidos.
Familiares passaram a tarde diante da delegacia e se recusaram a comentar sua prisão. “Não tenho nada a declarar. Ela é inocente”, se limitou a dizer a mãe, Eliane.
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