<p>Em uma casa simples, de cinco cômodos com paredes e móveis repletos de santos e imagens religiosas, em Patrocínio Paulista, vive uma das mais fortes e determinadas mães que Franca e região conheceram nos últimos meses: Cacilda Galante Ferreira, 37. Uma mulher simples. De fala mansa e poucas palavras.</p><p> Daquelas que parecem que nunca se estressarão com nada e também que não se deixam abalar por nenhum problema. Enfrenta os entreveros da vida de frente. </p><p><br />Até o nascimento da filha Marcela, Cacilda levava uma vida pacata em um sítio a 18 quilômetros de Patrocínio, onde vivia com o marido Dionísio Ferreira e com as duas filhas adolescentes Débora e Dirlene. Nascida em Pedregulho, desde pequena morou na zona rural de Patrocínio. Há um ano e cinco meses viu sua vida se transformar com o nascimento da pequena Marcela, que é anencefála (sem cérebro). </p><p><br />Passou a conviver diariamente com a imprensa e com o assédio de curiosos e de pessoas que nunca ouviram falar de Patrocínio e de todo o Brasil, que querem conhecer e saber de sua filha. Alguns ficaram admirados com sua decisão e coragem de não interromper a gravidez. Outros a criticaram. Não deixou se abalar.</p><p> Pelo contrário, sempre recebe a todos com um sorriso no rosto. E não importa quem seja. Sempre com roupas simples, de se usar em casa, e de chinelo, geralmente, nem convida para sentar. Vai logo levando as visitas para o quarto onde Marcela sempre repousa no berço. Nos últimos meses, as visitas mais constantes são dos familiares que moram em Franca, Pedregulho e Patrocínio.</p><p> “Meus pais, que moram perto do meu sítio, também me visitam sempre”.<br />Para ela, Marcela foi uma grande bênção e um presente de Deus em sua vida. Em meio a sorrisos, conversa com a filha e sempre a pega nos braços para mostrar para as visitas. “Olha como ela está gordinha. Nem consigo ficar muito tempo com ela nos braços”. </p><p><br />Cacilda garante que nunca derramou uma lágrima por ter tido uma filha anencéfala. Se apega à religião para enfrentar o sofrimento. Tem uma fé inabalável. Sempre menciona Deus na conversa e diz que entregou a filha a Ele. “Que seja feita a vontade dele e nunca a minha”. </p><p><br />É essa crença fervorosa em Deus que a ajuda a enfrentar o fato de ter uma filha cujas previsões apontavam que não sobreviveria aos primeiros minutos de vida. Para Cacilda, o fato de Marcela estar prestes a completar 1 ano e 6 meses é um milagre. Em razão de toda essa fé nunca quis que sua filha fosse alvo de estudos. “Para quê? Se fosse para ela melhorar, poderia até ser. Mas sei que ela não vai mudar”.</p><p><br />Quando a filha nasceu, deixou para trás a vida no sítio ao lado da família e passou cinco meses em um quarto na Santa Casa de Patrocínio Paulista para aproveitar todo o tempo possível ao lado do bebê. Transbordou de alegria quando se mudou para uma casa no bairro do Marumbé, onde mora até hoje com Marcela. Lá, passou a receber visitas de pessoas que nunca viu, até mesmo de outros Estados e países. Um deles foi o bispo italiano dom Serafin Spreafico, que esteve na cidade para defender a não-legalização do aborto. Também viu com normalidade a filha se transformar em um ícone anti-aborto no ano passado durante um evento realizado em São Paulo. Com a história da filha que atravessou fronteiras, recebeu muitos presentes e mensagens de apoio de todas as partes do País. “A que mais gostei foi de uma mulher de um deputado da Bahia que esteve aqui e me mandou uma foto com a Marcela em um quadro”. </p><p><br />Apesar de não se considerar um exemplo para outras mães, Cacilda foi a escolhida para homenagear todas as mães de Franca e região neste domingo dedicado a elas. De presente, gostaria de ganhar a saúde das filhas. “Minhas filhas já são um presente. Em especial, a Marcela”. </p><p> </p><p><strong>Comércio da Franca - O que mudou em sua vida após o nascimento da Marcela?<br />Cacilda Galante -</strong> Eu não mudei em nada. Ainda sou a mesma Cacilda de antes. Apenas minha rotina mudou. Antes, eu morava no sítio com minha família. Além de dar conta dos serviços de casa, eu também trabalhava todos os dias na roça ajudando meu marido (Dionísio Ferreira). Agora moro na cidade e fico só dentro de casa cuidando da Marcela. A minha rotina está bem mais tranqüila.<br /></p><p><strong>Comércio - Por falar em tranqüilidade, a calma com que a senhora enfrenta a anencefalia de sua filha é de impressionar. De onde vem toda essa tranqüilidade?<br />Cacilda -</strong> Da minha fé. Eu já tinha fé em Deus e agora tenho muito mais. Com a Marcela, eu aprendi a me entregar de corpo e alma a Deus. Não vou à missa porque não tenho como levá-la. Mas rezo sempre. Estou fazendo uma novena para a Marcela. Digo sempre que seja feita a vontade de Deus e nunca a minha. <br /></p><p><strong>Comércio - A senhora sempre foi calma assim?<br />Cacilda -</strong> Sou uma pessoa muito sossegada. Me tirar do sério é muito difícil. A única coisa que me chateia muito e me magoa é quando as pessoas me perguntam o que eu tomei para que a Marcela nascesse assim. Como se a culpa fosse minha. Também me revoltou uma ligação que recebi de uma mulher, que não sei quem é, que condenou por eu mostrar minha filha para todo mundo. Ela disse que se tivesse uma filha igual a Marcela ia colocar o berço dela atrás do guarda-roupa e não deixar ninguém ver. Essa mulher que é doente e não minha filha. Quem quiser ver é só bater no meu portão que eu deixo entrar. Ela é um instrumento nas mãos de Deus. Não posso escondê-la nunca.<br /></p><p><strong>Comércio - Quando as pessoas enfrentam algum sofrimento sempre se perguntam por que estão passando por aquilo. A senhora já se perguntou ou se revoltou por ter tido uma filha anencefálica?<br />Cacilda -</strong> Nunca perguntei por que estou passando por esse sofrimento. E em nenhum momento fiquei triste ou revoltada. Apenas aceitei de coração. Por isso, nunca derramei uma lágrima desde que fiquei sabendo do caso da minha filha. Fui eu quem deu força para minha família. Não permiti que ninguém ficasse chorando perto de mim nem da minha filha.<br /></p><p><strong>Comércio - A senhora acha que está preparada para perder a Marcela?<br />Cacilda - </strong>Se Deus um dia levar essa coisa fofa que é minha filha com certeza vou sofrer. Mas estarei tranqüila porque tenho certeza que fiz a coisa certa ao permitir que ela nascesse.<br /></p><p><strong>Comércio - Como mãe, qual é o seu maior medo?<br />Cacilda -</strong> O único medo que senti foi que Jesus levasse minha filha sem que antes eu conseguisse segurá-la nos braços. Mas eu sempre tive esperança. Só Deus sabe a felicidade que senti quando minha filha começou a mamar. É uma alegria que não sei explicar. Enquanto todo mundo chorava, achando que ela poderia morrer a qualquer minuto, eu aproveitava todos os segundos com muita intensidade. Eu não pensava em nada. Só dizia a mim mesma que minha menininha é linda. Para mim, ela é perfeita. Também senti muito medo quando ela teve reação alérgica à vacina que tomou em janeiro deste ano contra a gripe e pneumonia. Eu achei que naquele momento eu ia perdê-la.<br /></p><p><strong>Comércio - Que momentos marcantes a senhora destacaria desta jornada?<br />Cacilda -</strong> Quando ela nasceu, eu tinha muito medo de machucá-la. Só tive coragem de dar o primeiro banho quando ela tinha dois meses. Um dia, eu resolvi que tinha chegado a hora. Eu ainda estava na Santa Casa. Então, tranquei a porta do quarto e fiquei uma hora dando banho nela. No começo, ela chorou muito e eu só ria e conversava com ela. Aos poucos ela foi ficando quieta. Acho que ela entendeu que era a mãe dela que estava ali. Foi bom demais. <br /></p><p><strong>Comércio - A senhora tem vontade de voltar a morar no sítio?<br />Cacilda -</strong> Sinto muita saudade de lá. Desde que a Marcela nasceu, só fui lá duas vezes. A última vez foi no fim de março. Eu levei ela comigo. Foi muita felicidade. Muita emoção. Tiramos muitas fotos para guardar de lembrança. <br /></p><p><strong>Comércio - Que mensagem a senhora deixaria para todas as mães neste dia dedicado a elas?<br />Cacilda - </strong>Para quem acha que Jesus não pode fazer o impossível em nossas vidas, faça como eu, lança-se nos braços de Jesus. Olhe o meu pequeno grande milagre que tinha apenas uns minutos de vida e hoje está quase completando um ano e seis meses! A minha pequena Marcela de Jesus. Foi por conta dessa minha fé que escolhi o nome dela. O meu sobrenome é Galante, mas não coloquei na minha filha porque ela não é minha. Ela é de Jesus, por isso recebeu o nome dele. <br /></p><p><strong>Comércio - A senhora se considera um exemplo para outras mães?<br />Cacilda - </strong>De jeito nenhum. Eu sou uma mãe comum. Só tenho muita fé. Por isso rezo muito. É essa fé que me ajuda a não ficar triste em pensar que a Marcela nunca me chamará de mãe. <br /></p>
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