Minha mãe se foi deste mundo num dia triste de junho de 2000, quando ainda tentava superar a dor pela morte do meu pai, ocorrida havia pouco mais de um ano. Não posso mais abraçá-la nem dar-lhe presentes. Fiquei sem amor de mãe. Desde então passei para o time dos filhos carentes.
Fico pensando como deve ser doloroso perder cedo a mãe e crescer sem seu referencial, sem tudo que ela faz e que ninguém faz igual. Mãe concebe e põe o filho no mundo, e só isso já seria suficiente para obter muita gratidão. Mas ela vai além. Dá proteção, afeto, ama sem esperar retribuição. Mãe é entrega, é alma que não sossega, não desapega; é mão que afaga, luz que não se apaga; coração enorme, não dorme enquanto todo mundo não chega. Mãe é só cuidados, dá duro para o futuro dos filhos, quer ver todos bem encaminhados. Mãe é sempre esperança, é alento, é um anjo; para ela o rebento, mesmo crescido, marmanjo, não deixa de ser criança.
Minha mãe me dizia que para ser alguém na vida era preciso trabalhar e estudar. À luz da lamparina, observava-me fazer a lição passada pela minha primeira professora, dona Marina.
O mundo seria muito melhor se o carinho das mães encontrasse mais reciprocidade. Se os filhos retribuíssem à altura o amor materno, sobraria menos tempo para fazerem besteira e ainda dariam felicidade a quem lhes deu a vida. É uma lógica tão simples. Filhos precisam relacionar-se bem com a mãe, e relacionamento requer envolvimento, é via de mão dupla, é dar e receber. Filho que se preza não vai querer ver a mãe triste. Mãe não é uma máquina multifuncional com botão “liga/desliga”. Ela tem sentimentos; adora ser útil, ajudar, mas também gosta de atenção, carinho, abraços, não pode ser só uma serviçal. Não é caretice divertir a mãe, sair com ela, conversar com ela. A mãe pode ser acima de tudo uma grande amiga. Filho pra valer se esforça pelo menos para mostrar que todo o esforço que a mãe fez por ele não foi vão. Quer alguém melhor do que a mãe para a gente abrir o coração? Entretanto, a “rainha do lar” acaba sendo a escrava, aquela de quem a gente lembra quando dela precisa, mas esquece depois.
Eu pensava que por ter começado a trabalhar cedo, ter estudado, obtido boas notas, certa realização pessoal e profissional, cumpri bem minha função de filho. Que nada. Foram tantos os abraços que não dei, as palavras amáveis que não disse, os segredos que não compartilhei. Estava ocupado demais pensando em mim. A maioria dos filhos é assim e eu não fui exceção, hoje eu sei.
Mãe, não sou o mesmo rapaz; como a madrugada traz o orvalho, o tempo criou marcas no meu rosto, tornou meu cabelo grisalho. Ainda tenho vontade de mudar o mundo, mas me sinto incapaz; primeiro preciso corrigir meus próprios defeitos, e isso já me dá muito trabalho. Ainda gosto daquelas “músicas malucas” e uso tênis de lona com “jeans” surrado e camiseta.
O mundo está cada vez mais complicado, mais cheio de arapucas. Às vezes, a gente se sente meio desorientado e não sabe direito o que faz. Mãe, não a esqueço, vejo-a em sonhos e parece tão real! Queria refazer tanta coisa, mas a vida segue e deixa tudo para trás. Não fiz o que devia no tempo certo e ao pensar nisso me entristeço. Meu consolo é a sua presença espiritual; sinto suas mãos nas minhas quando, antes de me deitar, rezo e agradeço; num sussurro, a senhora deseja que eu durma com Deus. Então empurro para o lado as preocupações e, em paz, adormeço.
Paulo Pereira da Costa
Promotor de Justiça e autor de Pensando na Vida . E-mail: paulopereiracosta@uol.com.br
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