É possível que o preço da gasolina na bomba dos postos fique mais baixo? Você saberia dizer por que a experiência diz que a tendência é que se torne cada vez mais alto? E que não há caminhos para mudar isso?
Por volta de 1981, dediquei-me, como já contei aqui, a iniciar em Franca um posto do CVV (Centro de Valorização da Vida), representante de entidade internacional que se dedica a ouvir quem precisa desabafar. Pela união de centenas de braços voluntários, a força de apoio foi grande e a coisa aconteceu. O CVV está aí, apesar das dificuldades de manutenção, prestando relevantes serviços à comunidade regional.
Mais para o final daquela década e início dos anos 90, período da inflação galopante – lembro-me de um 47% em apenas um mês! – com o auxílio do Ministério Público (o Dr. Décio Piola, naquele tempo envolvido com Direitos do Consumidor) e da área de informática da Sabesp (pela determinação de diretores da época, Cláudio Antônio Borges e José Everaldo Vanzo, que acreditavam que a estatal tinha que se integrar a causas francanas, além de prover água e esgoto), compus na cidade grupos de “Pesquisas de Preços”, chamando a integrá-los pessoas comuns, donas-de-casa e aposentados (lembro-me como ficaram felizes em participar, o Sr. Noel Ferreira – onde será que anda? – à frente). Este pessoal andava pela cidade – com apoio da Empresa São José – e levantava preços de produtos da “cesta básica” em supermercados, armazéns e pequenos comércios. Tabulados, os levantamentos eram colocados em centros comunitários, no próprio MP, na Sabesp, em escolas, possibilitando às pessoas comprarem por menos o indispensável.
Consegui o apoio da presidente do Idec – (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), Marilena Lazarini, para a causa e enviei à capital do Estado alguns do integrantes do grupo, para treinamento. Foram, apreenderam o que puderam e, aqui, treinaram os restantes. De novo, o poder da ação em grupo.
Naquela ocasião, também os combustíveis subiam toda semana. Em busca de rumos também para “aquilo” (anunciava-se aumento para o dia seguinte e os postos passavam a registrar filas quilométricas para abastecimento ao preço do dia), soube de grupo de consumidores mineiro, que estava praticando estratégia de sucesso para forçar postos a reduzirem preços. E a idéia era simples: por uma semana, o maior número possível de consumidores deixava de abastecer em postos de determinada bandeira. E olhem que e-mails e sites de relacionamento não estavam pulverizados como é hoje. A comunicação era na base do boca-a-boca e pelo rádio.
Hoje me surpreendi com mensagem falando sobre a possibilidade da gasolina chegar a R$ 3 o litro, através de correções sucessivas de preços na bomba, apesar dos recém, descobertos supercampos de petróleo da bacia de Santos. Segundo as autoridades, “não há como manter o preço do barril de petróleo a preços menores do que o mercado internacional e então...”. O diesel, que impulsiona a logística de distribuição da comida por todo o País foi o primeiro aviso: subiu entre 9 e 10% para o caminhoneiro. A partir dos preços do frete, a ciranda de correções para cima já está girando.
No mesmo e-mail que recebi, outra informação: “consumidores de todas a partes do País começam a praticar a idéia de não comprar de uma determinada bandeira por 3 meses consecutivos. Têm conversado com seus conhecidos por e-mail e, por progressão geométrica, pretendem chegar pelo menos a 30 milhões de consumidores/dia, em todo o País, número – segundo eles – capaz de forçar um distribuidor a reduzir preços e, por extensão, forçar os outros também a fazerem o mesmo”.
De prático, a confirmação do valor da união. Entendo que não é só a União que tem capacidade de imprimir sua força (de cima para baixo) e a gente que aceite, sem reclamar. A população também tem poder. Não o tem usado com sabedoria porque neste mundo de vaidades pessoais, o interesse coletivo virou nada...
AINDA DEFASADOS
Depois do anúncio de aumentos de 10% para a gasolina e 15% para o diesel, Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura, disse que “ainda é pouco”. Segundo seus cálculos, o preço da gasolina, nas refinarias da Petrobras, sem impostos, estava 22% abaixo e o do diesel, 30% menor que os preços internacionais. O que estava amenizando a alta do petróleo era a “valorização do real”. Então, pelo que se observa, vem mais por aí. O pessoal que fez circular o e-mail que recebi tem razão, portanto.
INTERESSANTE
O colunista Denilson Carvalho, que edito às quarta-feiras neste Comércio, comentou interessante parâmetro sobre a questão do acerto de preços que os postos de combustíveis praticam, “por regiões”. Segundo ele, quem abastece, o faz sempre no mesmo posto, por questão de fidelidade. Se encontra preços aumentados, sai em busca de valor menor, mas sempre perto do posto em que está acostumado a comprar. Os proprietários, sabedores da tradição, se entendem para deixar os preços muito próximos uns dos outros. Portanto, dentro da mesma região, a fidelidade paga (praticamente) o mesmo preço...
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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