O que é isso, companheira!


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A saga da irmã Dorothy de Nossa Senhora de Namur representa a coragem de uma mulher que não se deixou seqüestrar pelos arranjos existenciais que poderiam confiná-la ao cativeiro da mediocridade. Sua morte faz parte de um elenco macabro de muitas mortes encomendadas e da violência que faz do sertão paraense o mais conflituoso do meio rural brasileiro. Sua seara, sua missão! O município de Anapu, lócus de sua missão, fica próximo à “Terra do Meio”, região de conflitos em razão de 90% da área ser considerada pública, e a ocupação indevida dessas terras, a principal causa. Somente em 2002, três anos antes de sua morte, que o governo federal implantou o Projeto Desenvolvimento Sustentável Esperança: 33 mil hectares divididos em 11 glebas para 180 famílias. Nesse projeto, irmã Dorothy desenvolvia vários programas de inclusão social. Dorothy Mae Stang, nasceu Irmã Dorothy de Nossa Senhora de Namur, em 1956. Fez seus votos perpétuos prostrando-se diante de Deus e da Igreja com os braços em cruz e a “boca no pó”, como diz o profeta Jeremias, sentindo o gosto amargo da opressão do homem. Essa terra, mais tarde, se configurou na Amazônia, onde exerceu seu apostolado. Os seus braços em cruz, a aceitação das conseqüências de sua opção pelos pobres. Foi o que aconteceu aos 12 de fevereiro de 2005, às sete e trinta da manhã, numa estrada deserta e de difícil acesso onde seu corpo crivado de balas foi encontrado. Tinha partido para um vôo sem volta a avis-rara da Amazônia. Lucio Flávio Pinto, jornalista premiado e professor universitário, com vários livros e trabalhos publicados sobre a Amazônia, ao refletir sobre sua morte considera quatro agravantes: primeiro por ser mulher, segundo por ser idosa, terceiro por sua condição de religiosa, quarto pela dupla nacionalidade, que a manteve como estrangeira, e um quinto surge na medida da forma brutal da sua execução. Irmã Dórote, como era conhecida, arriscava-se muito, sua coragem não conhecia limites, sabia das ameaças e parecia conhecer os pistoleiros que foram contratados para matá-la. Visitou-os no acampamento. “Leu a palavra de Deus imaginando que os demoveria do intento sanguinário”, conta o jornalista. No dia seguinte viu os dois homens a seguindo numa picada da mata, justamente a que levava ao assentamento ao qual vinha se dedicando. Não se intimidou, sacou de sua arma, a Bíblia Sagrada. Rayfran das Neves Sales, (Fogoió), fez o primeiro disparo seguido de mais cinco de seu comparsa Clodoaldo Batista, para conferir o serviço e mandar recado aos outros alvos da “sanha”. Como semente boa plantada em solo fértil, reunia-se com os jovens, onde desenvolvia um projeto de educação ambiental no meio da floresta, com reprodução de mudas da Amazônia. E lá está enterrada conforme seu desejo. Odiada pelos madeireiros, pois a inclusão social dos agricultores sem terra previa a sustentabilidade social, proposta essa que vinha denunciar a atuação dos grileiros de terras públicas que destroem a floresta através da retirada ilegal da madeira. Sua agenda a aproximava de vários segmentos da sociedade com quem dialogava, lideranças camponesas, políticas e religiosas, na perspectiva de encontrar soluções duradouras e sustentáveis para os conflitos. Muitas armadilhas foram habilmente arquitetadas, como a de ser responsável pelo armamento dos camponeses e por incentivar invasões. Justificada, recebe o título de Cidadã Paraense e da OAB, como Defensora dos Direitos Humanos em 2004, um ano antes de sua morte trágica. Lembrar sua história é lembrar a saga de uma “Águia” (L. Boff). A onda de indignação por sua morte que parecia ter passado voltou fortemente com a absolvição do fazendeiro apontado como mandante. O que foi isso então, companheira? MADRE TEREZA DE CALCUTÁ Agnes Gronxha, cidadã do mundo foi, antes de tudo, uma ativista política. Sempre a caminho dos últimos, da chamada escória do mundo, que estão destinados a morrer nas sarjetas, que incomodam e trazem repugnância aos que passam. Àqueles que incomodam o comércio, porque afugentam-lhes clientes, aqueles que batem às portas em busca de auxílio e são confundidos com ladrões e assassinos. Os mesmos que um dia, como conta a história, em nome do progresso na cidade do Rio de Janeiro, foram jogados à correnteza do Rio Guandu. Moradores de rua que incomodam porque acusam toda uma sociedade mostrando no corpo e nos farrapos a negligência e o abandono. Afinal o mundo é dos ricos, bonitos, inteligentes e dos malhados e malhadas emergentes de especialistas em “ex-cultura” corporal, ou melhor, a contracultura da natureza. O ESTATUTO DE CALCUTÁ “Na escolha de nossas obras nunca houve planejamento ou idéias preconcebidas. Nós apenas pusemos mãos à obra à medida que o sofrimento do povo chamou-nos em sua ajuda. Foi Deus quem nos mostrou o que havia de ser feito”. Fundou a ordem das Missionárias da Caridade, no dia 7 de outubro de 1950, para o cumprimento da missão de amor e compaixão dentre os mais pobres. Os objetivos estatutários preconizavam a procura pelas cidades e aldeias do mundo inteiro, mesmo nos lugares abandonados, de doentes, paralíticos, pobres, moribundos, desesperados, os perdidos, marginalizados, para que ‘possamos cuidar deles, prestar-lhes todo tipo de ajuda, visitá-los assiduamente, viver por eles o amor de Cristo’ principalmente revelar-lhes o grande amor que Cristo tem por eles.” Maria Ignez Archetti Consultora para o 3º setor, foi vereadora - mariaignez@comerciodafranca.com.br

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