O barbeiro pergunta: ‘Completo?’. ‘Manda bala’, responde o freguês, recostado na poltrona, tranqüilo, comendo qualquer coisa. Nem esquenta quando percebe uma navalha no rosto. Já imaginou? Um senhor cheio de instrumentos perfuro-cortantes ao redor do seu pescoço, podendo, no mínimo, se quiser, decepar uma orelha sua, ou cortar a ponta do seu nariz?
Mas, nada disso acontece. Eles trocam piadas, xingam o time do outro, comentam as notícias que saíram quentinhas no jornal do dia e debatem política. Salvo um ou outro atrito por questões futebolísticas, que são rapidamente digeridos, barbearias são saudáveis. São templos e inspiram respeito.
O barbeiro – um dos mais antigos profissionais do mundo – aos poucos vai perdendo seu espaço no mercado de trabalho para os grandes e modernos salões de beleza. A tecnologia e a modernização dos aparelhos de barbear contribuem para afastar os homens das barbearias. Muitos preferem fazer em casa a sua própria barba, ou então em salões de cabeleireiros que adotaram técnicas e tendências modernas, tornando obsoletas e ultrapassadas as antigas barbearias.
Os profissionais barbeiros têm sentido o declínio de sua clientela. Mas é possível encontrar em Franca um bom número desses especialistas no corte de cabelos e barbas à moda antiga, não só em bairros, mas também no Centro da cidade, como no salão do Heraldo, perto do terminal de ônibus.
Na barbearia do ‘sêo’ Arlindo, no alto da Estação, do Joel, na Vila Nova e do Ênio, na Cidade Nova, ainda há espaço para falar de religião, para se ler o jornal, para se reencontrar velhos amigos e saber quem já se foi. Como era antigamente. Ainda se usa tesoura e navalha; o álcool desinfeta pequenos arranhões, com um ardido agudo. E ninguém reclama. Muitas dessas barbearias à moda antiga ainda usam o assentador e a velha cadeira giratória. Na Santa Cruz, a barbearia do ‘sêo’ Armando não tem televisão, não tem rádio, não tem revista de fofoca. Mas quem precisa disso?
Nos bons tempos, quando se usava Água Velva e creme Williams para barbear e se cortava o cabelo com máquina zero, não havia lugar melhor para se inteirar dos fatos do que os salões de barbeiros. Tão logo a gente se sentava na cadeira o barbeiro começava a desfiar um rosário de novidades. Era também um expert em puxar a língua do cliente e colher informações que eram repassadas sem frescuras.
Um policial civil certa vez me confidenciou que quando ia fazer uma investigação, sempre procurava uma barbearia para dar uma aparadinha no cabelo. Quase sempre conseguia a informação pretendida. Mas, para não cometer injustiças, bom lembrar que antigamente também tinha barbeiros avessos a fofocas. No máximo ele contava um milagre, preservando a identidade do santo. Isso matava o cliente de curiosidade, obrigando-o a pesquisar noutro lugar.
Bons tempos. Não somente pela nostalgia, mas também por uma época em que na ausência das opções fáceis de divertimento em casa como a televisão, Internet e videogames, voltávamos um pouco mais às relações humanas e interagíamos mais com nosso semelhante em outros rituais sociais como a ida ao barbeiro. A barbearia é um pedacinho do passado. Definitivamente, parou no tempo. Graças a Deus.
Edward de Souza
Jornalista e radialista - edward@comerciodafranca.com.br
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