Eles eram, em sua maioria, muito jovens. Com idades que beiravam os vinte anos, poucos tinham estudado, muitos eram do campo e alguns, pela falta de documentos, sequer existiam oficialmente. Entre os anos de 1943 e 1945, 25 mil brasileiros nessas condições foram “empurrados” para a Segunda Guerra Mundial. Após uma brevíssima preparação, a Força Expedicionária Brasileira chegou em levas à Itália. Hoje, quando o mundo todo comemora o Dia da Vitória e o fim do maior conflito armado da história, dois veteranos francanos, sobreviventes das batalhas contra as tropas de Hitler, dão seus depoimentos.
Vestidos com uniformes e portando medalhas conquistadas em combate, Ademar Manoel Tavares, 86, e Gabriel Corrêa Lemos, 84, estão absolutamente lúcidos. Passados 63 anos, lembram eventos, datas, passagens, nomes de cidades. Recordam ainda nomes dos amigos e companheiros de unidade que viram morrer na guerra. Involuntariamente, as lembranças estão bem guardadas na cabeça, impressas no corpo e presentes onde quer que olhem.
Moradores em Franca, os dois são os únicos, de um grupo de 22 homens da cidade, que ainda estão vivos. Tavares nasceu e nunca saiu do Miramontes. Seu colega, Lemos, é de Cássia (MG), mas trocou de cidade há 24 anos.
Suas histórias são parecidas: trabalhadores rurais, foram convocados pelo governo de Getúlio Vargas para se apresentar em um quartel. Depois de flertar com os nazistas, o Brasil, por pressão norte-americana, declarou guerra ao Eixo, formado pela Alemanha, Itália e Japão.
Conversar com homens que passaram por experiências como a desses dois senhores é uma oportunidade única de ouvir aquilo que comumente se conhece apenas pelos livros de história. Por outro lado, não é muito agradável fazê-los recordarem as atrocidades que presenciaram, cometeram ou evitaram numa guerra que, como disse Tavares, não era deles. “Os alemães e os italianos estavam lutando pela pátria deles. Mas e nós, do Brasil? A guerra não era minha. O nosso presidente Getúlio Vargas empurrou a gente para lá”.
Ao lado de 5 mil soldados, Tavares foi enviado à guerra ainda no primeiro grupo da FEB. Antes, em 1943, passou por quartéis de Lins, Pindamonhangaba e Rio de Janeiro, onde recebeu apenas instruções básicas de combate. Muita gente desertou.
A caminho do porto de Nápoles, onde desembarcaria, ainda no Estreito de Gibraltar, lembra dos constantes sobrevôos da aviação alemã sobre o navio de transporte de tropas norte-americano em que viajava. Na Itália, entrou em combate nas cidades de Lucas, Barga e Montese. Nesta última, foi atingido por estilhaços de uma granada e perdeu parte de dois dedos da mão direita. Mesmo ferido, não foi dispensado e, dias depois, voltou à batalha no Vale do Rio Pó. Retornou ao Brasil em 18 de julho de 1945, junto com o 1º Escalão de Retorno.
Tanto quanto seu companheiro, Lemos narrou a alegria que foi a notícia do fim da guerra, em 8 de maio, seis dias depois da rendição dos alemães às tropas aliadas na Itália. “Foi uma felicidade imensa. Eu abraçava todo mundo. Eram soldados se abraçando e chorando”, disse ele, sorrindo. “Eu quando soube só pensava em voltar para a minha terra”, emendou Tavares.
Lemos participou da guerra por menos tempo. Apresentou-se ao Exército em Juiz de Fora (MG) e chegou à Itália, a bordo do navio americano Meigs, em 6 de outubro de 1944, na terceira remessa de soldados. Algumas lições de combate aprendeu em projeções de cinema preparadas pelo comando do Exército.
Pouco tempo depois, enfrentava tropas alemãs em Livorno. De lá, seguiu para Monte Castelo, um pesadelo militar sob o ponto de vista estratégico, dada a dificuldade de avanço dos brasileiros em uma região montanhosa fortalecida pelos alemães e italianos desde a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
Os dois ex-combatentes desmentiram o que alguns pesquisadores afirmam, que não havia uniformes adequados a enfrentar o frio. A neve, segundo Tavares, chegava a um metro. “Tinha tudo à nossa disposição; só não gostava da cama rolo”, disse ele, referindo-se aos sacos de dormir.
Cansaço, medo, que quase não permitia dormir, ração alimentar em latinhas e frio, muito frio. Relembrando perfeitamente de todos os detalhes que cercaram suas passagens na guerra, os dois vão falando nomes. Nesse momento, Tavares, que brincou e sorriu durante toda a reportagem, caiu em um choro profundo. Com vergonha, disse que “está ficando bobo”. Lembrou do tenente Lima, sargento Torres e cabo Weber, todos despedaçados em Montese por bombas, rajadas de metralhadora e granadas.
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Gabriel Lemos também traz à mente um soldado baiano que viu ser atingido por estilhaços. “Perdeu os braços, as pernas e ficou cego, ali, na hora. Lembro que pediu para eu atirar nele. Mas como podia atirar em um companheiro?”, questionou ele. “Era muita destruição. Só havia trégua para os enfermeiros pegarem os corpos. Depois, começava tudo de novo”. Mais uma vez, Tavares completou as palavras do companheiro. “As dificuldades que passamos não vamos esquecer nunca. Só por Deus é que conseguimos voltar vivos”.
Na chegada ao Brasil, caíram no ostracismo, que durou mais de quarenta anos, precisamente até 1988, quando a Constituição Federal reconheceu o papel dos homens que lutaram na Itália. Os pracinhas tiveram sua situação militar revista. Foram elevados ao posto de segundo tenente. Recebem, hoje, perto de 10 salários mínimos mensais. “Por muito tempo fomos esquecidos pelo governo. Isso fez com que muitos que voltaram fossem viver de pedir esmolas. Hoje a situação é um pouco melhor”, disse Lemos.
Ao final, conversa já avançada, os dois revelaram que não guardam qualquer amargura pelo tempo que passaram envolvidos com a guerra. Perguntados como agiriam caso encontrassem frente-a-frente alemães contra quem lutaram, os dois disseram que “dariam um abraço neles, como amigos. Ninguém teve culpa de nada”.
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