A indústria calçadista francana passou por uma verdadeira revolução nas últimas décadas. A cidade, que chegou a exportar 15,5 milhões de pares em 1993, hoje não vende 5 milhões de pares no mercado externo. Seu maior parceiro comercial continua sendo os EUA, que já chegaram a absorver 70% das vendas dos calçados da cidade - hoje compra apenas 35% das exportações. A menor venda e uma maior diversidade de clientes, no entanto, teve seu ponto positivo. O preço do calçado francano cresceu 50% em 27 anos. Em 1981, o par de sapatos custava US$ 16. Esse mesmo produto hoje vale US$ 24,12.
As mudanças de números, no entanto, mostram uma outra transformação, esta notada nos pés: a do designer do calçados. Novas formas, mais modelos e cores e um processo de informatização da produção que atingiu a indústria mundial. Com a nova tecnologia, os desenhos deixaram de ser feitos à mão para ir para a tela do computador, onde há mais liberdade para testar protótipos e ousar.
Para falar sobre as mudanças, nada melhor do que quem as viveu na prática. É o caso de Carlos Brigagão, que em 1965 montou, junto com familiares, o Calçados Sândalo. “O que se usava na década de 70 era um calçado social, as cores eram apenas preto e café. Naquela época tínhamos cinco coleções, com mais ou menos dez modelos cada.” Hoje são pelo menos 150 modelos, renovados constantemente. O motivo desta maior variedade está justamente ligada à exportação, que a Sândalo começou a realizar ainda naquela década. “A exportação foi muito importante no aprimoramento do calçado, porque a revisão de qualidade era para valer e nós passamos a perceber detalhes que nos passavam despercebidos.”
A criação para a exportação, no entanto, seguia uma lógica de produção maciça, com modelos produzidos em larga escala e definidos pelo comprador. “Nas décadas de 70, 80, o número mágico que eles falavam era de 100 mil pares. Esse conceito de grandes volumes mudou. Principalmente no final da década de 90. Ficou todo mundo querendo receber com mais constância e com menos quantidade, nos dois mercados (interno e externo)”. Junto a esses fatores, também alavancam a mudança a concorrência da China, que passou a produzir calçados em larga escala, e a alta do dólar, que encareceu o produto made in Franca.
“Mudou quase tudo. A concorrência impôs aos fabricantes uma transformação na velocidade do desenvolvimento. Antigamente as empresas faziam só dois lançamentos por ano, mas não existia diversificação de formas, de materiais. O designer de calçados acompanhava sempre a mesmice. A concorrência externa, principalmente asiática, fez com que o empresário pensasse em um produto diferente, e isso estimulou o designer”, diz Carlos Roberto Gomes, que presta assessoria em desenvolvimento de produtos para fábricas. A maior prova disso é a ausência atual de modelos que, como nas décadas passadas, se tornaram referência de toda uma geração. Um exemplo é o Dockside, produzido pela Samello na década de 1980 e que se tornou o principal calçado da época.
O QUE MUDOU
A mudança é facilmente perceptível, mesmo para um leigo. A começar pelas formas. Em um passado bastante recente, os modelos de uma coleção ou de uma “estação”, independente da marca do calçado, eram bastante semelhantes: quando a moda era o bico quadrado, todos os modelos seguiam tal padrão e assim por diante. Hoje, é possível encontrar diversas formas em uma única coleção. “Hoje não ficam apenas dois ou três modelos de forma na produção. A fábrica tem uma variedade de construções de calçados, tudo isso para atender o mercado”, disse Carlos Roberto. Um dos motivos para isso foi a criação de modelos próprios, em vez de copiar os que já fizeram sucesso. “Muitas fábricas ainda continuavam naquela coisa da cópia. Eles esperavam o que o outro fazia para ver se ia dar certo para poder fazer também. As maiores iam atrás de novidades, sem contudo abandonar a cópia totalmente. Agora, de uns oito anos para cá, principalmente, as fábricas sentiram necessidade de investir em uma forma diferenciada, trazer novidades, ser diferentes no design”. A análise do consultor é reforçada pelo professor de design do Senai Tiago de Melo Rosa. “A tendência hoje aponta para uma forma mais arredondada, mas isso não quer dizer que não existam formas assimétricas, forma com a cara um pouco mais quadrada. Hoje se atende a todos os tipos de padrões e gostos. A variedade de produto é muito grande”.
As cores também começaram a variar bastante. O preto e o marrom foram dando espaço a outras tonalidades e hoje é possível encontrar modelos das mais variadas cores. Até a década de 1980, por exemplo, dificilmente um sapato masculino vermelho estaria em uma vitrine.
A tecnologia, que possibilitou a criação de novos materiais e de testes de qualidade, fez com que os calçados fossem desenvolvidos para oferecer o máximo de conforto, alterando o desenho da palmilha e até mesmo os pontos de costura do couro. “Hoje os calçados passam por testes de laboratório para testar flexão, desgaste de solados. Alguns componentes do calçado tiveram uma evolução muito grande”, comenta o professor de design.
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