Cadeia é lugar para poucos


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O OUTRO LADO DA PRISÃO - O médico Marco Aurélio Piacesi, que por sete anos atuou na Cadeia do Jardim Guanabara, conta como é tratar de presos e revela por que resolveu abandonar o consultório na unidade
O OUTRO LADO DA PRISÃO - O médico Marco Aurélio Piacesi, que por sete anos atuou na Cadeia do Jardim Guanabara, conta como é tratar de presos e revela por que resolveu abandonar o consultório na unidade
<p>O ambiente carcerário é para poucos. Trabalhar ao lado de uma população oscilante, dificilmente inferior a 300, 400 pessoas, com toda sorte de problemas e privada do que há de mais caro ao ser humano, a própria liberdade, foi a atividade que o médico Marco Aurélio Piacesi desempenhou durante sete anos. No contato com os presos da Cadeia Pública do Jardim Guanabara, em Franca, teve que impor limites a si mesmo, o que permitiu não se envolver em dramas rotineiros. Na defesa do exercício médico, chocou-se com a realidade das celas, da disseminação de doenças, das regras rígidas estabelecidas pelos próprios detentos como forma de sobrevivência, do trabalho de coragem de policiais e grupos religiosos. Uns obrigados; os outros, por vontade de regenerar aqueles de quem a sociedade quer apenas distância. “Não estou aqui para defender ninguém, não, mas a visão das condições de um preso só muda quando você tem um amigo ou parente lá dentro”, disse Piacesi. E como as coisas no Guanabara só fizeram piorar nos últimos tempos, ele deixou seu pequeno ambulatório na unidade prisional, assumidamente, por medo. Apesar do clima, a experiência foi intensa. “Daria para escrever um livro por semana”, disse Piacesi.</p><p> <br /><strong>Comércio da Franca - O senhor passou sete anos atendendo os presos na Cadeia do Guanabara. É possível fazer alguma reflexão sobre esse tempo e o seu trabalho lá dentro?<br />Marco Aurélio Piacesi -</strong> Eu posso dizer que foi impressionante. Você aprende todos os dias. De cada ser humano, o que você ouve é uma lição. Creio que lidar com as situações do dia-a-dia é fácil. A diferença é ficar calmo quando todo mundo está nervoso. Ali dentro as pessoas só te apresentam dificuldades. Então, se for para piorar as coisas, é melhor não ir para um lugar desses. A tolerância frente a algumas coisas muda.<br /><br /><strong>Comércio - Apesar do óbvio, qual a diferença entre a população normal e a carcerária que permita entender as peculiaridades de seu trabalho no Guanabara?<br />Piacesi -</strong> Se você tiver o mínimo de decência, encara o quadro de forma diferente. Aquelas pessoas fizeram algo de errado. Só que um monte aqui fora também fez. A única diferença é que aqueles foram pegos e o resto, não. A situação médica é a mesma de um consultório, mas a abordagem é outra. Aqui fora o sujeito se queixa porque queria viajar para Londres e a mulher não quis ir junto. Lá dentro, o outro diz que estava fumando a maconha dele, a polícia chegou... A gastrite que os dois têm, um pela ansiedade de ter que viajar sozinho, e o outro, pelo momento da prisão, é a mesma. A úlcera é a mesma. São as circunstâncias que tornam o trabalho diferente.<br /><br /><strong>Comércio - Dentro do sistema de saúde, qual a justificativa para se manter um ambulatório dentro de uma unidade prisional?<br />Piacesi -</strong> É uma visão que tem caráter epidemiológico. Você pode entender a cadeia como uma unidade de saúde, com seus pacientes com HIV, tuberculose, hipertensão, diabetes. Uma das primeiras preocupações quando esse serviço foi implementado foi a visão epidemiológica. A idéia era inibir essas doenças para que não se espalhassem na população carcerária, nem nas visitas, sobretudo nas visitas íntimas. Você não pode imaginar o impacto e a intranqüilidade que um ou dois presos com sarna, no meio de 15 ou 20, podem gerar.<br /><br /><strong>Comércio - Além de, provavelmente, não ser o local dos sonhos para se trabalhar, o senhor ainda deve ter enfrentado alguma resistência nesse tempo...<br />Piacesi -</strong> Meu amigo, enfrento isso até dentro da classe médica. Chegam pra mim e dizem para eu cuidar de gente decente, que eu estou tirando remédio de quem precisa, que estou tentando arrumar vaga em hospital para preso. No dia em que disserem que preso deverá morrer na prisão, sem merecer cuidado, eu até poderei fazer isso, mas com minha convicção filosófica e religiosa eu não tenho condição. A opinião das pessoas com relação a presos só muda quando se tem um amigo ou parente dentro da cadeia. Aí vão querer todos os direitos.<br /><br /><strong>Comércio - Em algum momento, nesses sete anos, o senhor deixou a condição de médico para tomar as dores para si e questionar as condições da cadeia?<br />Piacesi -</strong> Eu me envolvi várias vezes. Tanto quando pedia a remoção de presos cuja saúde não permitia que ele ficasse na cadeia como em relação à comida. No primeiro caso, quero fazer reconhecimento ao doutor Arimatéia (juiz José Rodrigues Arimatéia, corregedor da cadeia), porque através dele conseguir que presos sem condição física pudessem cumprir pena em casa, como um detento cego e paraplégico. É claro que sua permanência na cadeia lhe traria riscos. Outras ocasiões foram pela comida. Na maioria das vezes, a quentinha é “incomível”, porque é uma coisa horrível. E não venham me dizer que estou defendendo que preso deva comer picanha, que não é isso. <br /><br /><strong>Comércio - É possível imaginar que o trabalho seja feito apenas racionalmente, sem se emocionar ou se chocar?<br />Piacesi -</strong> Eu me choco constantemente com o que vejo lá dentro. O que podia mudar, eu ia atrás. Com o que eu não podia, não gastei minha energia. Mas nem sempre tive a sensibilidade entre uma coisa e outra. Em alguns casos, acredito que não propositalmente, o carcereiro me trazia o preso e dizia: ‘Olha, doutor, esse aí foi o que fez aquilo com aquela pessoa’. Isso era como uma pancada. Então cheguei a dizer que não queria mais saber e que, quando me interessasse pela ficha do preso, eu perguntaria. Não tem como não reagir a isso.<br /><br /><strong>Comércio - No contato com os presos, durante o atendimento, havia a necessidade deles falarem? Acha que eles depositavam confiança em lhe fazer revelações?<br />Piacesi - </strong>Alguns até chegavam a querer contar suas histórias, mas eu que não incentivava esse ato. Eu dizia que se estivesse sentindo alguma vontade, que conversasse com o pessoal dele. Dependendo do que ele me falasse, me deixaria em uma situação constrangedora e não queria me ver em dificuldade. Foi por princípio profissional.<br /><br /><strong>Comércio - Apesar do longo tempo, chegou um momento em que a autoconfiança estremeceu?<br />Piacesi -</strong> Nos últimos meses, com o problema da rebelião, eu passei a ter uma coisa que não tinha antes: era medo mesmo. Já não entrava na cadeia com a naturalidade de antes. Achei por bem sair. Não existia lugar em que eu não entrasse no Guanabara, embora, em alguns lugares, sua entrada possa soar como provocação. Mas eu me aproximei de celas com 20, 30 presos, sem que nada tivesse acontecido. Ultimamente, não tinha mais essa certeza.<br /><br /><strong>Comércio - Em duas oportunidades, dentro do Guanabara, o senhor pôde presenciar o início de rebeliões. Descreva esse momento.<br />Piacesi -</strong> Por duas vezes eu estava lá quando o tumulto se formava. Nesse momento, se eu pudesse, queria é estar no colo da minha mãe. A sensação de desamparo é incrível. Os carcereiros e as pessoas que são funcionárias são dotados de uma coragem enorme para poder ficar num lugar daqueles. Eu ia duas ou três vezes por semana. E quem tinha que permanecer 24 horas por dia? Depois que aquelas portas se fecham, é um lugar tenebroso.<br /><br /><strong>Comércio - O senhor disse que daria para escrever um livro por semana. Pensou alguma vez nisso?<br />Piacesi -</strong> Não sou nenhum Dráuzio Varella, não. Mas daria mesmo para ter um livro. É muita história que se tem lá dentro. <br /></p>

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