O resultado do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2008 mostrou que, em Franca, escolas particulares, como é verificado em todo o País, dominam o ensino médio. Melhores professores, salários - em média, de mais de R$ 5 mil -, estrutura física voltada para o desenvolvimento do aluno e foco cada vez mais voltado à aprovação nos vestibulares, são as características dominantes.
Na semana que passou, o Comércio da Franca enviou um questionário com oito perguntas para os diretores das seis escolas mais bem classificadas no Enem em Franca. São cinco particulares e uma pública, a Escola Técnica “Doutor Júlio Cardoso”, que não está vinculada à Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, mas à Fundação Paula Souza, da Secretaria de Desenvolvimento Estadual.
Dentre as perguntas, detalhes sobre a proposta pedagógica, como é a disciplina do portão para dentro e o nível de graduação dos professores, cujos vencimentos foram omitidos pela maioria das escolas consultadas, à exceção do Novo Colégio, terceiro melhor colocado.
As respostas podem dar uma noção ampla de como a proposta pedagógica e a valorização do profissional, aliadas à estrutura física dos colégios, formam o diferencial na educação brasileira. O lado ruim desse círculo vicioso, obviamente, é a contínua segregação.
Com mensalidades sempre superiores aos R$ 500 (exceto a Industrial, que é gratuita), as escolas vão recebendo e preparando as melhores cabeças das famílias que podem pagar por essa preparação, embora alguns diretores tenham feito questão de frisar o caráter humanitário de suas instituições, que, freqüentemente, buscam oferecer bolsas a alunos carentes.
Entre os “primos ricos”, a Escola “Doutor Júlio Cardoso” figura como a única pública das seis. Tradicional na formação técnico-profissionalizante, difere das públicas em tudo. Com lista de espera e processo de seleção, é rigorosa no acompanhamento do aluno e tem um quadro docente com liberdade para exercer outras profissões. “As pessoas chegam aqui e perguntam quanto é a mensalidade, porque pensam que é escola particular”, disse o diretor Mauriel Abib. A Industrial obteve a sexta melhor nota no Enem.
Para a primeira colocada no Enem em Franca, estrutura, apoio ao aluno e valorização dos profissionais são o tripé que sustentam sua liderança. Com perto de 300 alunos, o Colégio Pessoa é administrado pelos próprios professores, em um quase regime de cooperativa.
“Não queremos, no atual momento, crescer. Os professores e funcionários conhecem os alunos pelos nomes, sabem quem são seus pais. Há uma proximidade e uma cumplicidade muito grandes e nós não queremos perder isso”, disse o professor Clóvis Affonso Zerbatto, um dos donos do Pessoa.
Outro item indiscutível na perpetuação das escolas nesses rankings que medem sua qualidade são os próprios alunos. Apesar de terem o cotidiano voltado quase exclusivamente à tarefa de aprender, são eles, no final das contas, os responsáveis pelo nome da escola que representam. Por isso, cada vez mais, serviços e atividades são oferecidos como forma de garantir a fidelidade do estudante e, por tabela, da família.
No caso de Arlete Rodrigues Kochi, mãe de um casal de alunos, Thaísa (3º ano do ensino médio) e Gustavo (6º ano do ensino fundamental), matriculados no Colégio Alto Padrão, foi a insistência da filha que a fez mantê-la matriculada na escola, quando sua intenção, alguns anos atrás, foi tirá-la.
“Por conta de alguns fatores, até como a localização, eu quis matricular meus filhos em outra escola, mas foi ela (Thaísa) que insistiu em ficar e continuar”!, disse Arlete. Satisfeita com os resultados obtidos pelo casal de filhos, ela acredita que a escola cumpre com o programa que se propôs a oferecer.
EFICÁCIA E MARKETING
Especialistas em educação freqüentemente discutem se o Enem, estabelecido e realizado pelo governo federal, tem validade e serve como ferramenta que ateste se uma escola é ou não melhor que outra, em termos comparativos. A resposta, ainda que fragmentada, pode ser entendida cada vez mais pela própria propaganda que essas escolas fazem de sua performance no exame, realizado nos meses de outubro de cada ano e aplicado aos alunos que estão na terceira série, o antigo terceiro colegial.
No time dos que jogam contra, a explicação é a mesma. Por não ser obrigatório, muitos alunos acabam não enfrentando a prova, relativamente fácil, aplicada pelo MEC (Ministério da Educação). Outro motivo: mesmo que responda aos testes, cujas respostas são as que realmente valem para o critério de avaliação, mas deixe a redação de lado, o aluno perde nota, fazendo com que o conceito da escola caia.
Aparentemente a justificativa é essa, mas o contrário domina o cenário. Cada vez mais, alunos estão participando do Enem, estimulados pelas escolas e pelos professores. Descobriram, todos, que as notas são importantes para o ingresso em faculdades concorridas, sendo que algumas instituições adotam como critério de seleção, unicamente os resultados do exame.
Outro lado positivo: escolas, públicas ou particulares, descobriram, e estão usando bem, que o Enem é um marqueteiro de primeira grandeza. Com os resultados em mãos, professores e diretores logo tratam da divulgação, pois quanto mais alunos com boas notas, mais qualidade - teoricamente - a escola oferece.
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