A gente gosta de elogios. Em regra, é difícil lidar bem com a crítica, no sentido de censura, julgamento hostil. Exceção são as pessoas em estágio espiritual avançado, entre as quais não me incluo. Entretanto, é possível enfrentar críticas sem sofrer tanto, até por ser impossível viver sem receber críticas. Cá entre nós, temos mais propensão a criticar do que a elogiar. Sem liberdade de criticar, não existe elogio sincero (Pierre Beaumarchais). Se na vida a gente não ouve só o que gosta, precisa aprender a tirar proveito disso, filtrando para absorver o que pode ajudar e desprezar o que não tem consistência. Ou seja, a crítica alheia deve servir para aperfeiçoar a autocrítica. Não se deve deixar estragar o dia porque alguém disse que você engordou. Não vale a pena desestabilizar-se emocionalmente por conta de palavras de quem não tem o que falar. Quando se recebe uma crítica, deve-se analisar se quem a lançou tem legitimidade moral para fazê-lo. Há críticas que não têm base e por isso devem ser ignoradas; o que não presta morre por si mesmo.
É preciso pensar antes de criticar. Há alguns anos eu fui comprar um eletrodoméstico numa loja em que já possuía cadastro. Estava com pressa por causa do trabalho e não queria perder muito tempo. O jovem vendedor que me atendeu solicitou meus documentos para confirmar os dados. Eu, mal-humorado, critiquei tal exigência, pois afinal já era cadastrado. Sem se perturbar, ele me disse que era uma cautela tomada para proteger o próprio cliente e evitar que alguém mal-intencionado utilizasse cadastro alheio para fazer compras. É óbvio que ele estava certo. Pus o rabo entre as pernas e recolhi-me à minha insignificância.
É comum certo inconformismo quando se recebe uma crítica. Porém, não se deve deixar levar pela precipitação. Talvez quem criticou tenha razão. Um pouco de humildade nessa hora ajuda. “Quem se enfada pelas críticas, reconhece que as tenha merecido (Tácito). Considerações desfavoráveis lançadas de forma construtiva devem servir para aperfeiçoar o juízo de valor, o senso crítico, o exercício de pensar. Amigos de verdade não hesitam em nos criticar quando fazemos besteira, mas é evidente a boa intenção que os move, a preocupação de nos fazer enxergar aquilo que não estamos vendo ou que nos recusamos a ver. A adulação, por outro lado, deve ser recebida com certa reserva, pois é o meio mais eficaz de inflar o nosso ego e nos fazer cair na armadilha de quem quer de nós algo que não merece. Dizer coisas que envaidecem é um meio de transformar em presa fácil.
Às vezes parece que exigem demais de nós, que estão pegando no nosso pé, mas não é nada disso. Ninguém exige nada de quem não tem potencial. Feliz de quem tem chefes e professores exigentes. Tudo que a gente faz, seja no trabalho ou na vida pessoal, deve fazer não para receber elogios ou ter o reconhecimento alheio, mas sim para atender a uma exigência íntima de bem fazer, pensando sempre: esse é o meu melhor? A isenção e o senso de justiça devem sobrepor-se ao medo de possíveis críticas. “Os melhores autores são sempre os críticos mais severos de suas obras” (autor desconhecido). Para quem acata regras por medo das punições, andar na linha é um sacrifício. Quem age corretamente por consciência da necessidade de assim agir vive melhor, pois faz a coisa certa sem esforço, é mais livre.
Paulo Pereira da Costa
Promotor de Justiça, autor do livro Pensando na Vida (Martins)
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.