Pensar no futuro, no futuro...


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Oito mil estudantes chegaram à cidade na última quarta-feira, véspera da abertura da 32ª edição dos Jogos Estaduais Universitários de Direito, promovidos pela Atlética da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, a Unesp. A maioria desses visitantes integra as classes A e B e têm alto poder aquisitivo. São oriundos das mais importantes faculdades de Ciência Jurídica do Estado de São Paulo, particulares ou públicas, dentre elas ilhas de excelência como Largo de São Francisco da Universidade de São Paulo, Mackenzie, Pontifícia Universidade Católica (PUC), além, é claro, de nossas Direito Municipal e Unesp, campus local. Economicamente falando, a cidade que acolhe os Jogos ganha: segundo estimativas, os visitantes vão deixar na economia francana cerca de R$ 3,5 milhões de reais pelos cinco dias de “invasão”. São consumidores contumazes de hipermercados, lojas de departamentos e shoppings. Se alimentam em restaurantes, lanchonetes e barzinhos. Fecham quase todas as vagas de hotelaria, motelaria (ao pé-da-letra não apenas para pousos mas também, e muito, em alta rotatividade), pensionatos. Se não há vagas, contratam quartos em repúblicas de outros estudantes ou em casas de família. Uma alta percentagem usa o próprio veículo. A maioria se locomove em ônibus, os mesmos que os trouxeram à cidade. Muitos, em táxis. Um profissional da cidade ganhou em 8 horas, transportando visitantes até um clube na Rodovia Ronan Rocha, R$ 700. Os postos de combustíveis ficam também com um bom quinhão do dinheiro que circula. Tudo ótimo e maravilhoso? Nem tudo. Aliás, quase nada. Os jovens vulcões de adrenalina, testosterona e progesterona, freqüentadores de torneios do tipo têm, como filosofia básica, “pensar no futuro, no futuro...”. O presente, usam para viver intensamente a liberdade que as leis garantem e a liberalidade que transborda dos costumes modernos. Dia destes, uma profissional da área da saúde de quem gosto muito me disse para deixar de ser tão duro com a juventude; para relevar a busca desenfreada e se dedicar para encontrar a tênue diferença entre o certo e o errado. Estava certa, mas me preocupa o fato “destes” jovens serem futuros advogados, profissionais que farão das leis o arroz-com-feijão de suas vidas; e que hoje não querem, nem em sonho, serem vistos como pleiteadores de tal formação. Sobem em carros de terceiros e sapateiam. As futuras bacharéis sobem a blusa e mostram os seios a incrédulos em plena praça pública. Pelas ruas, vê-se completo desrespeito a leis elementares de trânsito. No feriado, a exemplo, os motoristas que desciam a Rua Campos Salles paravam no sinal vermelho de semáforo existente no cruzamento com a Avenida Champagnat e continuavam “vermelhos de raiva” quando o sinal mostrava o “verde”: não podiam entrar porque o fluxo de carros de Piracibaba, Ribeirão Preto, Campinas, São Paulo e dezenas de outras cidades, repletos de “futuros doutores da lei” portando latas de cerveja e garrafas de bebidas alcoólicas desrespeitavam o sinal vermelho que os obrigaria, em condições normais de pressão e temperatura, a parar. Conversei com um advogado já formado, que participou de jogos do tipo e ele me deu a medida com que os universitários se dedicam a viver intensamente a oportunidade de, longe dos livros, dos mestres, das famílias e, bem perto dos companheiros e companheiras, “aproveitarem tudo o que puderem”: as competições esportivas e seus resultados são o de menos – há vários “atletas” que vão cumprir a tabela bêbados; o que interessa é o álcool, que ajuda a quebrar as normas sociais: quanto mais sexo e drogas, melhor; não importa onde estiverem, a regra é “quebrar tudo”, na maioria das vezes, literalmente. Ele não está totalmente longe da verdade: o álcool levado às últimas conseqüências, inclusive no trânsito onde se coloca a vida de outras pessoas em risco, será ainda fácil de observar pelas ruas e imediações de ginásios esportivos da cidade hoje e amanhã. Se você afirmar os olhos, poderá ver também o restante do que ele contou. Então, cuidado. Proteja os seus e a você próprio. E torça para que o futuro dos advogados que estão vindo por aí seja melhor do que vários daqueles que advogam – mal – hoje. “CANTO DE GUERRA” Anote aí o refrão do “canto de guerra” da torcida uniformizada da Faculdade de Direito da Unesp, campus de Franca, que pode ser ouvido ainda hoje e amanhã nos estádios esportivos que têm jogos deste certame: “Sou unespiano, maconheiro e cheirador / Eu não jogo nada, mas sou bom de porrada”. ENFRENTAMENTO Outro, de enfrentamento às torcidas de universidades pagas: “Sou unespiano e estudo de graça / o que você paga de mensalidade / eu tomo de cachaça”. JUVENTUDE Há quem diga que tudo isso é passageiro. Que todos, certamente, serão bons homens e mulheres, além de bons profissionais daqui mais algum tempo. Afinal, quem não bebeu um dia até cair, por conta da juventude? E quem não saiu do sério pelo menos uma vez na vida? Concordo. Tudo é perdoável quando não restam seqüelas; vidas colocadas em risco, a de terceiros e a deles próprios. Que, pelo menos neste quesito essencial, tudo fique no zero a zero. Luiz Neto é jornalista, radialista e mestre cerimonialista, é editor de Opinião e gestor de Relações Corporativas do Comércio da Franca

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