Uma boa notícia para os pais com filhos em idade escolar: seus filhos não serão mais estatística. E, se forem, ficarão fora daquele quadradinho onde está escrito ‘analfabetos’. Isso porque o governo de São Paulo criou uma solução simples, mas genial, para um fantasma que vem assombrando o Brasil desde sempre, o analfabetismo.
É fácil: para que as crianças sejam forçadas a aprender a ciência da escrita e do cálculo, todas as outras foram abandonadas. É isso mesmo, a partir de agora, as crianças do primeiro grau de algumas escolas públicas terão apenas aulas de português, matemática e, também conhecida como ‘segundo recreio’, educação física. O foco agora é aprender “a” escrever. E aprender “o que” escrever? Bem, não se pode resolver tudo, não é mesmo?
Como prova da eficiência desse sistema, me incumbi de fazer uma projeção de como será uma redação desses ‘futuros gênios’ quando se tornarem vestibulandos:
‘Eu tenho uma mãe e dois pais. Minha mãe me disse que meus pais fizeram um acordo com a cegonha para me trazer. Mas eu não sou burro. Eu sei que cegonha não conversa com gente. E, se conversa, a do zoológico da minha cidade é surda, porque nunca me responde. Mas eu não sou burro. Sei que é comum gente surda. Eu mesmo acho que sou surdo. Minha avó me disse que quem é surdo não fala direito e eu falo mal pra caramba. Mas eu não sou burro. Eu falo mal, mas escrevo bem. Tanto que já prestei esse vestibular antes e não cometi um só erro de português. Infelizmente não passei. Mas eu não sou burro. Sei exatamente quantas vezes eu não passei nessa prova. E nunca erro a conta. Aliás, nos meus 25 anos de vida, com raiz quadrada 5, eu nunca errei uma só conta. O que é útil lá em casa desde que um dos meus pais morreu com a peste e o outro saiu para comprar cigarros há 10 anos, o mesmo que 5 vezes 2. Mas eu não sou burro. Sei que cigarros não são tão difíceis de achar. É por isso que eu acho que ele foi atrás de algum tipo de cigarro que pararam de fabricar. O coitado deve estar procurando até hoje. Ainda bem que não puxei ele, porque esse meu pai nunca foi muito esperto. Mas eu não sou burro’.
Caroline Néri Rosa
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