Mea culpa


| Tempo de leitura: 4 min
A parafernália midiática, no entorno do inaceitável e horrendo crime contra uma criança indefesa, deveria com a mesma força provocar uma agenda séria que priorizasse o combate à violência intra familiar infanto-juvenil. Caso contrário sobra a banalização, ou seja, semelhante ao último capítulo da novela Vale Tudo, quando o Brasil parou para saber “Quem matou Odete Roitman”. Nesse momento, em algum ponto da cidade, ou talvez, bem próximo a qualquer pessoa, uma criança emite um grito jamais ouvido. O triunvirato Família, Governo e Sociedade não ouve. Afinal, é só um grito de criança. O cientista político Paulo Sérgio Pinheiro, conselheiro da ONU para assuntos da violência infanto-juvenil, foi convidado há três anos para chefiar um grupo de pesquisadores. O objetivo era traçar o mapa da violência no mundo e produzir um relatório final que sustentasse ações mundiais contra essa chaga. Visitou mais de 130 países, ouviu a Unicef, ONGs e, principalmente, aqueles que geralmente não são ouvidos por serem “crianças”; elas, as protagonistas dessas histórias de terror. Buscando-as nos cárceres imundos, na fome das guerras e nas diversas culturas que têm a violência revestida de requintes de perversidade. Ouvindo-as, constatou que jamais perdem a esperança! “As crianças surpreendem porque nunca perdem a esperança”. Admite que a violência mais difícil de detectar é aquela que acontece entre quatro paredes. As pessoas não denunciam em razão do medo de se complicarem e, principalmente, por que não querem meter a colher, para não piorar ainda mais a situação, ou porque são indiferentes mesmo. Algumas agressões estão tão arraigadas às culturas, que não chegam a soar como deploráveis, diz o cientista. “A palavra yar, do dialeto wolof que se ouve na Mauritânia, de acordo com suas pesquisas, significa tanto educar como bater”. Mas, é inadmissível que em pleno século 21, pais tratem os filhos com pancadas. Noventa por cento dos americanos ouvidos surram os filhos movidos pelo stress e até “para formar o caráter”. Meninas rejeitadas em algumas culturas sofrem fome comendo do prato dos irmãos até que, adoecendo por inanição, chegam à morte porque o sistema de saúde nunca prioriza o atendimento a mulheres-crianças. Controle demográfico promovido na Índia mata suas crianças, preferencialmente mulheres. Quem está pagando essa conta, afinal, que interesses ocultos sustentam a barbárie? Meninas mutiladas no Iêmen têm o clitóris decepado nas primeiras semanas de vida, nas próprias casas, sem nenhum cuidado ou higiene, muitas morrendo por infecção. Consta do relatório que na África Central e Ocidental, recém-nascidos com deficiência são negligenciados à morte para alívio de suas famílias. A violência globalizada traz a pergunta hoje calada no peito: que humanidade é essa que sacrifica suas crianças? Que humanidade é essa que humilha, maltrata, encarcera suas pequenas vítimas para satisfação de sua paranóia e seus instintos mais perversos e pervertidos? Isabella hoje é símbolo de toda essa ignomínia. Quantas vezes ainda Isabella haverá de morrer em seus irmãos e irmãs pela omissão? Eu hoje matei Isabella na criança em farrapos que não vesti, naquela com fome a quem não dei o que comer. Eu hoje matei Isabella! NO BUMBUM DÓI, DÓI! Palmadinha no bumbum pode ser enquadrada como punição corporal. O projeto de Reforma Legal no Brasil, abolindo a punição corporal doméstica de crianças e adolescentes, elaborada pelo LACRI/USP, teve a colaboração de advogados da área de Direitos Humanos (SP) e foi apresentado à Câmara Federal pela deputada Maria do Rosário (PT-RS). Tramitando no Congresso Nacional tipifica a punição corporal como violência. Isto significa que os adeptos das palmadas precisarão se cuidar e encontrar formas mais civilizadas para a solução de conflitos, juntos a seus ‘babies’, crianças e adolescentes. Os crimes hediondos contra crianças, cometidos por pais ou responsáveis, com certeza deve ter começado com a ‘clássica’ palmadinha! QUEM CALA CONSENTE “Que criança ousará, e em que excepcionais condições, empurrar um adulto, puxá-lo, bater nele?” Escrito em 1929 por Janusz Korczak por ocasião da proclamação do “Direito da Criança ao respeito”. Em 1990, o Brasil ratificou a Convenção sobre os Direitos da Criança (1989) no qual prescreve em seu artigo 19.1: “Os Estados-Partes adotarão todas as medidas, legislativas, administrativas, sociais e educacionais apropriadas para proteger a criança contra todas as formas de violência física ou mental, abuso ou tratamento negligente, maus-tratos ou exploração, inclusive abuso sexual, enquanto a criança estiver sob custódia dos pais, representante legal ou de qualquer outra pessoa responsável por ela”. Resta saber, quem poderá protegê-la quando o abusador ou agressor forem os próprios pais... Disque Denúncia: 100. DA SABEDORIA INFANTIL “...existem pessoas ruins no mundo, eles batem em crianças inocentes, como crianças de rua, filhos, etc. e acho que essas pessoas não podem ser gente”. Arthur, 12 anos, Colégio Liceu de Arte e Ensino, Campo Grande, Mato Grosso do Sul (Campanha Crescer sem Palmada - LACRI/USP). MARIA IGNEZ TOSELLO ARCHETTI é voluntária social, consultora para o 3o. setor, foi vereadora e secretária da Assistência Social.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários