O mundo contemporâneo anda carente de homens que expressem sua coragem ou que reunam elementos genéticos ou ideológicos que os tornem capazes de assumir posicionamentos com determinante firmeza, haja vista que a grande maioria nasce ou cresce dentro de culturas muito aquém das ideais nesta sociedade que reclama por mais altruísmo e intrepidez.
Foi na região Sul do País que surgiu figura interessante neste contexto, coisa rara nos dias atuais. Ao aparecer, munido de suas crenças, o simpático padre Adelir de Carli se tornou figura pública ao alçar vôo pelos céus sulistas recostado numa cadeira pendurada a milhares de balões de aniversário.
Semelhante ao vento tornaram-se unívocos, não sabendo para onde iriam. Nutria o padre o desejo em permanecer 20 horas no ar, tentando alcançar recorde e entrando para a história como um brasileiro que ousou.
Muitos, por todo o País dispararam críticas fulminantes contra o religioso que voava com balões de festa, ainda mais num dia em que o tempo não era propício. Em meio a relâmpagos, fortes ventos e chuva, subiu e desapareceu.
Tido como tolo, louco, inconseqüente, imprudente, inexperiente e outros “entes” que facilmente são proferidos por “gente” com percepção muito abaixo da média de compreensão em casos que envolvem a autonomia, a liberdade, o direito e o poder de escolha que só eram pertinentes a Adelir; ele fez ouvidos moucos aos equivocados ou pseudo-avaliadores.
Embora existissem riscos, os assumiu sabendo das possíveis conseqüências. Apenas desejava voar, sentir o vento, a emoção da aventura, era sua a vida içada nos balões; fez o que seu coração desejava. Não colocou em risco a vida de mais ninguém. O padre não almejava ser celebridade, galgar cargo político, tungar dinheiro público, corromper pessoas, viver vida de luxúria e deleite, trapacear na vida; se casado fosse, buscar aventuras extraconjugais ou se entregar de corpo e alma aos prazeres da carne. Ele só queria voar...
Descobrimos um homem que renunciou a si pelo próximo, enxergando na vida clerical o meio que lhe agradou para cumprir tal propósito. Tinha o direito de fazer as coisas que gostava. E voar era uma delas.
Se possível fosse imaginá-lo nas alturas... Solitário e prestes à decadência natural do cálculo lógico da Física em que tudo que sobe, desce; e de poder sentir a cegueira das trevas que o possuíram naquela noite, envolvido num vazio desesperador que não lhe oferecia o chão... encontraríamos ainda, um homem valente e de nobres sentimentos que assumiria seus riscos pôr aquilo que seu coração desejava fazer. E, lá do alto, em espírito contrito, fez sua oração, entregando-se Àquele que era o verdadeiro autor da sua vida.
Pode-se não entender a coragem que o movia, mas ele era sim, um homem de coragem.Também tinha motivação, que considerava seu dever clerical: queria chamar atenção para a Pastoral dos Caminhoneiros. Cometeu erros, mas não fugiu das dificuldade de sua escolha. Não há muitos como ele. O que vemos são criaturas mais parecidas com ratos amedrontados e fuinhas, que mal conseguem manter conduta ilibada e honrosa numa sociedade esvaziada de virtudes.
Ricardo Veríssimo Júnior
Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde municipal e conselheiro do Comércio
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