O vice-prefeito de Franca, Ary Pedro Balieiro, tem ensaiado nas últimas semanas seu grito de independência. Oficialmente, evita críticas ao prefeito Sidnei Rocha (PSDB), mas é ainda mais econômico nos elogios. Aparições públicas dos dois, juntos, são cada vez mais raras. Quando acontecem, mais por coincidência do que por vontade de um ou de outro, o constrangimento é inevitável: cada qual no seu canto, sem nada além de cumprimentos formais.
Nos bastidores, Ary Balieiro é bem menos contido. O engenheiro convertido em político, que entre mandatos como prefeito ou vice acumula 14 anos de paço municipal, anda muito irritado com o que considera “ingratidão” do “amigo” Sidnei Rocha. Afável, de fácil trato, mas nada modesto, Ary acredita ter sido sua participação o principal fator que levou a dupla à vitória nas urnas em 2004, uma espécie de “vacina” contra o humor instável e o gênio difícil de Sidnei Rocha. Nesta condição, considera-se credor político de Sidnei, de quem esperava muito mais.
Na campanha de 2004, quando Sidnei e Ary ressurgiram do limbo no horário eleitoral gratuito no rádio e TV, foram reapresentados aos eleitores como “amigos” de longa data, que com a “experiência acumulada” fariam uma administração conjunta que traria Franca de volta aos “bons tempos”.
Puro marketing. As dificuldades de relacionamento entre os dois não são recentes. Datam, pelo menos, de 20 anos atrás, quando Sidnei Rocha foi bombardeado por todos ao renunciar à Prefeitura de Franca para assumir a Vasp. No episódio, que se converteria no maior desastre de sua vida pública, Sidnei Rocha esperou pelo menos por um gesto público de apoio ou defesa vindo de Ary Balieiro. Em vão.
Ary Balieiro pouco fez, na época, para ajudar Sidnei Rocha a impedir a Câmara de Vereadores de forçá-lo a uma renúncia penosa. Sem opção, já que a Câmara lhe negou uma “licença”, Sidnei Rocha renunciou e abriu caminho para que Ary Balieiro assumisse a Prefeitura. Ambos ficariam então afastados por duas décadas, até a disputa de 2004, quando a dupla se reuniu.
O problema é que Ary parece ter acreditado mais do que devia no discurso de campanha. A divergência “moderna” entre ambos remonta aos primeiros momentos pós-vitória nas urnas. Em sua primeira entrevista após confirmada a vitória no pleito, ainda no comitê de campanha, Sidnei Rocha já trocava o “nós” do período eleitoral pelo “eu” que marcaria sua gestão. O governo, para o bem e para o mal, é Sidnei Rocha.
O vice que sonhou em dividir o comando da Prefeitura acordou para a realidade: Sidnei Rocha manda, os outros obedecem. Ary inclusive, como simples coadjuvante. Inconformado, começou a ensaiar seu dó de peito, com pouquíssimas perspectivas de sucesso. Sem o vigor da juventude e os apoios que poderiam tornar reais os seus anseios, o sonho de protagonizar esta ópera mais parece choro de menino emburrado.
Sidnei Rocha assiste a tudo de camarote. Sem adversários expressivos, é dele a decisão sobre quem será seu vice. Aquele que escolher sai da disputa e senta-se feliz na cadeira de vice. Até por comodidade e para evitar maiores explicações , Sidnei dará preferência ao atual vice. Desde que, é claro, Ary não insista em grandes compensações.
Ary sabe que não tem como vencer o embate. Pressiona, sobretudo, por mais espaço. Quer cargos, secretarias, comandos de autarquias. Poucas migalhas o contentariam. Por hora, Sidnei nega abertura e garante que o espaço do vice é o que já existe, mas pode ceder um pouco. Bem pouco. O que Ary conseguir é lucro. O resto, é jogo de cena.
CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca
jrneves@comerciodafranca.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.