<p>O francano Antonio Coutinho se define profissionalmente como jornalista por “usucapião”, tradução para autodidata. Começou na profissão em 1972, no Comércio da Franca, exercendo várias funções. Trabalhou posteriormente no Diário da Franca, no jornal O Estado de S. Paulo, foi correspondente regional da Folha de S.Paulo. Seu currículo inclui ainda assessorias de imprensa no primeiro mandato do prefeito Maurício Sandoval Ribeiro e no Sindicato da Indústria de Calçados de Franca, entremeadas por empreendimentos pessoais, como a transferência para Franca do jornal O Calçadista, fundado por Zdenek Pracuch e Romeu Cintra e que, sob a sua batuta, chegou a circular nacionalmente, declinando, contudo, após a derrocada econômica, especialmente para o segmento fabril, promovida pelo Plano Collor, no início dos anos 90. Essa intimidade com o setor coureiro-calçadista despertou Coutinho para a escassez de registros lineares e confiáveis da história dessa que é ainda a principal atividade econômica de Franca. Ele explica que, durante o período em que permaneceu no Sindicato da Indústria, iniciou pesquisas assistemáticas sobre o tema até resolver, em 2006, revisar e contrapor os dados de uma história até então fragmentada e produzir material de referência .</p><p><br />Por dois anos, concentrou-se no levantamento de informações e na redação do livro Couro Cru, que parte do período imediatamente anterior à instalação das primeiras oficinas de calçados em Franca e vai até a sua consolidação como indústria relevante nos cenários nacional e internacional, ou seja, de 1820 a 1950.</p><p> Coutinho conta que se dedicou full time à produção da obra, tendo investido, inclusive, nesse projeto, suas últimas reservas financeiras. Em entrevista ao Comércio, o jornalista antecipou que seu trabalho já está na gráfica, pronto para ser rodado, faltando apenas para isto uma cota de patrocínio. “Fiz vendas antecipadas para a minha própria manutenção, isto é, o patrocínio da redação. Estou fazendo agora contatos para conseguir o patrocínio da impressão”, diz ele.</p><p> “Preciso me desligar disso. Esse projeto já me tomou tempo demais. Agora quero partir para outras coisas. Gostaria de reunir historiadores e editar uma revista que enfocasse personagens históricos da cidade. Não sei se essa idéia é viável, mas penso em algo que seja contemplado por leis de incentivo fiscal. Também pretendo retomar o trabalho jornalístico, como prestador de serviços”, decide. Saiba o que Antonio Coutinho tem a dizer acerca da rigorosa pesquisa que acaba de concluir.</p><p> </p><p><strong>Comércio da Franca- Qual é a proposta de Couro Cru?<br />Antonio Coutinho -</strong> A proposta é apresentar as etapas de formação da indústria de calçado de Franca, que compreendem o período de 1820 a 1950. O primeiro registro de firma na cidade ocorreu em 1898. Houve oficinas anteriores a esse ano, esses dados foram encontrados em documentos para cobranças de impostos. A princípio, parece ser um trabalho voltado àqueles envolvidos com o setor calçadista, mas eu julgo não ser assim, porque, na sua origem, essa atividade se funde com várias outras. Mas a proposta central de Couro Cru é a de que, a partir de dados do passado, o leitor possa especular sobre o futuro do segmento em Franca, pelo fato de haver muita semelhança entre situações do presente com várias que ocorriam nos primórdios desse ramo.<br /></p><p><strong>Comércio - Dê um exemplo dessa correlação. Em que a indústria oitocentista, por assim dizer, se assemelha com a do presente?<br />Coutinho -</strong> Temos ainda hoje as oficinas. Esses empreendedores que saem da fábrica e montam o seu próprio negócio com a família, no quintal de casa. Ou seja, a configuração é a mesma dos empreendimentos de 1820.<br /></p><p><strong>Comércio - Por que você decidiu pesquisar e escrever sobre este tema?<br />Coutinho -</strong> Eu trabalhei por 12 anos no Sindicato da Indústria de Calçados de Franca. Logo que entrei naquela entidade, vi que havia solicitações de informações de vários gêneros, principalmente vindas do meio estudantil. No sindicato, não havia dados disponíveis, exceto por uma cronologia repleta de erros. Passei então a pesquisar o assunto, com base em trabalhos acadêmicos, para oferecer um atendimento “ambulatorial” a quem viesse procurar informações. Isso se deu em 1994.<br /></p><p><strong>Comércio - Você já deflagrava, nesse momento, os equívocos que posteriormente encontraria nos registros?<br />Coutinho -</strong> Não. Esse primeiro resumo que eu oferecia aos pesquisadores reproduzia erros anteriores. Fui simplesmente dando crédito às fontes que eu pesquisava, mas já desconfiando de muitas impropriedades. Por volta de 1999, diante de alguns questionamentos que esses interessados me faziam e aos quais eu não sabia responder, resolvi realizar um estudo mais profundo. <br /></p><p><strong>Comércio - Quais eram os erros mais comuns que acabaram por se incorporar aos registros históricos oficiais como verdades e que sua pesquisa vem sanar?<br />Coutinho -</strong> Vou dar um exemplo: o de que o surgimento da primeira indústria de calçados de Franca ocorreu em 1821. Essa data não é verdadeira. Há um autor que cita o surgimento de oficinas em Franca por volta de 1825. Ele toma por base um registro da Guarda Nacional, que tem elencados como oficiais alguns sapateiros francanos e proprietários de oficinas.<br /></p><p><strong>Comércio - Você teve dificuldades em encontrar bibliografia?<br />Coutinho -</strong> Comecei com entrevistas e, quando passei para a bibliografia, a dificuldade foi grande por ser ela quase inexistente em volume. A indústria de calçados foi, por muito tempo, artesanal, uma atividade de sobrevivência que não era alvo de estudos. Como atividade econômica na cidade, sua história é relativamente recente e pouco descrita. Isso dificulta avançar nas suas origens. O que se tem dessas origens são publicações da cidade, textos de jornal numa escrita gongórica que pouco informavam. Nesse momento, o trabalho, que já estava estruturado para ser realizado também a partir de documentação, seguiu o percurso da busca das atas da Câmara Municipal, do Arquivo Histórico, registros cartoriais. <br /></p><p><strong>Comércio - A idéia então era se concentrar na origem da indústria calçadista em Franca...<br />Coutinho - </strong>Exatamente. Esse trabalho possibilita fazer avaliações do presente tomando o passado por referência. Forma um memorial de uma indústria que se fez muito mais de pequenas iniciativas do que de grandes capitais. Desde 1870, digamos, os empreendimentos demonstram ter sido muito mais baseados na força de vontade e no trabalho do que nos grandes investimentos. Os grandes investimentos ocorreram em alguns momentos pontuais.<br /></p><p><strong>Comércio - E há causas claras para a instalação desse ramo por aqui?<br />Coutinho -</strong> Sempre se tenta buscar causas para uma atividade econômica. Mas os fatores econômicos não explicam a formação do pólo calçadista. Autores mais recentes de dissertações acadêmicas reiteram isto. Atribuo o entendimento da formação dessa atividade econômica na cidade, mais ao campo da psicologia do que da economia, porque o que temos são comportamentos que tornam a história bonita. Num determinado momento, o que ocorre é o que eu chamo de uma roda contínua de projeções. O semelhante passa a ser um estímulo para as demais iniciativas. Isso gerou um subfenômeno, que foi o da indústria ser incubadora de novas indústrias.<br /></p><p><strong>Comércio - Que Franca oitocentista é essa que você resgata em seu livro?<br />Coutinho -</strong> A mesma imagem empoeirada das aldeias de filmes do Velho Oeste (risos). Estamos falando, nesses primórdios, de um ermo, um vilarejo. Quando a Vila surgiu, já havia a atividade de sapateiro na cidade. Falamos de um período de escravatura no Brasil e a profissão de sapateiro se relacionava a trabalho braçal. Era um prestador de serviços que se deslocava entre as fazendas e a Vila. A partir de requisitos básicos para a manufatura de couro é que se inicia o trabalho.<br /></p><p><strong>Comércio - Aí entramos no capítulo de seu livro que fala na desmistificação da abundância de matéria-prima como alavancadora da atividade em Franca?<br />Coutinho - </strong>A premissa da abundância de couro em Franca para que se iniciasse a manufatura de couro e calçados é falsa. Tínhamos o couro bovino como matéria-prima básica, mas a produção era tão pequena que não existia muita oferta. A produção era basicamente destinada à população local, irrisória, não mais que 300 pessoas. Na sua origem, o sapateiro também sabia preparar o couro, material que era utilizado em praticamente tudo: catres, bainhas de faca, janelas, selas, baús, em quase tudo. E as oficinas se resumiam a um sapateiro e o aprendiz. <br /></p><p><strong>Comércio - Quando há a proliferação de indústrias?<br />Coutinho -</strong> Temos isso, especialmente, a partir de 1920, depois da fundação da Jaguar, que não sabemos ao certo se surgiu em 1919 ou 1920. Enfim, com Carlos Pacheco, esse empreendedorismo mais visível. Pacheco era considerado uma espécie de Matarazzo do sertão, por empreender várias indústrias simultaneamente. Ele não foi pioneiro só da industrialização de calçados em Franca, ele inaugurou uma nova classe em Franca, que é a industrial. Tínhamos aqui, então, basicamente, o café, o comércio e a pecuária. <br /></p><p><strong>Comércio - O modelo inaugurado por Pacheco foi uma novidade?<br />Coutinho -</strong> O que existia até então era a possibilidade de uma oficina ou outra ter uma máquina. Não havia a mecanização dos processos da fabricação de calçados. Ele também não seguia o modelo tradicional de acumular riquezas para investir na indústria. Pacheco captava empréstimos para criar empresas, coisa que não se via. Atuava em várias áreas sem esperar pela maturação. Teve fábrica de fósforos, fábrica de calçados, entrou em beneficiamento de café, serraria, transformou o Curtume Progresso num negócio para competir com concorrentes estrangeiros. Instaurou a idéia de linha de produção, até então inexistente.<br /></p><p><strong>Comércio - De acordo com as suas pesquisas, quando a indústria calçadista atingiu o seu apogeu?<br />Coutinho -</strong> Minha pesquisa vai até a década de 1950 e, historicamente, temos oscilações. Mas o auge mesmo se deu a partir de 1980, quando as exportações já estavam consolidadas. Atingimos nesse momento a excelência na qualidade, uma vez que os compradores chegavam com exigências às quais os industriais tiveram de se adaptar.<br /></p><p><strong>Comércio - Nesse panorama, você acha que se os primórdios tivessem sido diferentes, o presente seria outro?<br />Coutinho -</strong> Essa produção obedece ao roteiro básico artesanato, manufatura e indústria. Não houve, no início, a existência de grandes capitais. Suas oficinas eram conjugadas ao comércio, numa produção sob encomenda. Mas, aos poucos, essa característica vai se diluindo. Foram artesãos que se transformaram em empresários, na sua grande maioria. Até 1860, é uma atividade de sobrevivência. Em 1875, o café já se evidenciava como produção na região. A partir da cafeicultura, vêm as primeiras oficinas paralelas ao crescimento da população.<br /></p><p><strong>Comércio - Há quem diga que a monoeconomia foi prejudicial à expansão da cidade. Você concorda?<br />Coutinho -</strong> Ao contrário, foi uma atividade de fácil instalação, bastando, para seu desenvolvimento, talento para a produção e para negócios. Tanto ontem quanto hoje, o mercado é igual para todo fabricante. Haverá aquele que se destacará sobre outros, especialmente na aptidão para negócios. Geradora de empregos, de negócios, fez girar a economia. Franca era a “boca do sertão”, o que mais poderia ter prosperado tanto aqui? Pela formação da cidade, a proliferação, consolidação das oficinas e posteriormente da indústria foi um processo natural. <br /></p><p><strong>Comércio - E a presença dos “oriundi”, dos imigrantes italianos, que força teve na propulsão da indústria de calçados? <br />Coutinho -</strong> Os italianos tiveram grande importância na formação das sapatarias. Mas essa não era uma presença exclusiva em Franca. Os italianos estavam em todo o interior do Estado. Encontrei um almanaque de 1898 que descrevia as atividades dos imigrantes no Estado. Há sapatarias e presença de italianos em todo o Estado. <br /></p>
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