Isabella queria viver. João Hélio e todas as outras crianças assassinadas também. Criança quer a vida e não a morte. Crianças sonham com o futuro, querem crescer, ficar bonitas, encontrar seu par. Crianças desejam o bem-estar, o carinho, a proteção, o amor que os adultos lhes devem dar; até mesmo os limites que se lhes precisam impor. Criança não gosta de dor. Criança é energia, quer brincar, correr, descobrir, mexer em tudo; logo domina o computador.
Isabella, você se foi antes da hora, não a veremos mais; você é agora só o nome de um caso nas páginas policiais. Que tipo de seres humanos não quis que você soprasse a vela no seu aniversário de seis anos? Que mente doentia lhe impediu de ver a luz de um novo dia? Isabella, às vezes, na verdade que se revela, a vida não é tão mágica nem tão doce como a gente gostaria que ela fosse. Isabella, na corrida até a janela, no vão aberto às pressas na tela de proteção, na queda, no corpo que se estatela, não é você que morre: é a esperança no ser humano que se esfacela. Onde está o perigo? Lá fora, na rua escura, onde vagam desconhecidos, ou aqui dentro, onde deve estar a ternura dos entes queridos?
O ser humano perverteu a natureza. Num mundo normal, em que todos tivessem direito à vida e à liberdade, os mais fortes protegeriam os mais fracos. Ao invés disso, os que carecem dos meios de defesa não passam de instrumentos de satisfação dos desejos mais bestiais dos ditos ‘mais fortes’. Pessoas destituídas de força espiritual acham que podem compensar da forma mais ignóbil possível, exercendo dominação sobre seres indefesos, que nada têm a ver com isso. Pássaros presos em gaiolas, crianças abusadas sexualmente por pais, padrastos ou outras pessoas da própria família, crianças mortas. Isabella, se foi seu pai que lhe ceifou a vida, ele não era pai de verdade. Pais de verdade não matam filhos; preferem morrer para que os filhos vivam. Seres humanos de verdade não querem matar, preferem lutar contra sentimentos mórbidos que os tentam dominar. Isabella, quem chora por você? Vejo na TV milhares de pessoas acotovelando-se para ver os suspeitos da sua morte; muitas dizem ter vindo de outras cidades, viajando centenas de quilômetros só para isso. Como acham tempo?! Não têm nada mais produtivo e útil para fazer?
Isabella, este mundo é de mentirinha. E tem quem quer que continue assim. Não são todos que desejam um mundo de verdade, com seres humanos de verdade, com instituições de verdade, com famílias de verdade. Você iria lutar contra a hipocrisia, a perversidade, mas lhe tiraram esse direito. Alguém entendeu que você não podia mais viver. Se eu pudesse, trar-lhes-ia, você e todas as crianças assassinadas, de volta à vida, pois as escuto clamando pelo direito negado. Meu coração se oprime quando ouço Gal Costa cantar: ‘Ressuscita-me, ainda que mais não seja / porque sou poeta / e ansiava o futuro / ressuscita-me, lutando contra as misérias do quotidiano / ressuscita-me por isso / Ressuscita-me, quero acabar de viver o que me cabe, minha vida / (...) Ressuscita-me para que a partir de hoje / A família se transforme / E o pai... seja pelo menos o universo / E a mãe... seja no mínimo a Terra...’ (de Caetano Veloso, baseado em poema de Vladimir Maiakovski). Tento terminar meus textos dizendo algo que eleve o astral. Mas hoje não dá; hoje eu não estou legal.
Paulo Pereira da Costa
Autor do livro ‘Pensando na Vida’ - E-mail: paulopereiracosta@uol.com.br
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