Às 11 horas da manhã a primeira refeição do dia - depois do desjejum - é servida no Abrigo Provisório Municipal. No menu, um almoço de dar água na boca: feijoada, farofa com couve e cenoura, arroz branco fresco, vinagrete de repolho e tomate e salada de alface. Quatro moradores de rua esperam a sua vez do lado de fora do prédio, no portão. Eles chegaram após a contagem de internos e, por isso, têm que aguardar até que todos se sirvam para saber se terão comida também. É raro faltar. No Abrigo, entre um vaivém diário de pessoas, sempre cabem quatro a mais.
Todos os dias, são cerca de 10 pessoas que entram e saem do local fazendo o rodízio esperado. Uns aparecem para alguma das refeições, outros para pernoitar. A maioria é formada por moradores de rua, como o casal Rogério e GCS; e dependentes de álcool, como José Elias. Outros chegam trazidos pela Guarda Civil ou pela Secretaria de Ação Social e Desenvolvimento Humano tirados de situações de risco ou degradantes, como dona Magda, 60, despejada de sua casa em janeiro.
Existe uma parcela ainda que depende do local há tanto tempo que já transformou o Abrigo Provisório em residência permanente, como Maurina Vieira dos Santos, 30, Roberto de Souza, 50, e Daniel Martins Paulino, 41. Pessoas como eles fizeram a média de atendimento diários pelo abrigo saltar de 35 para 45 do final de 2007 para cá. Cada desabrigado possui histórias singulares, mas os ingredientes são quase sempre comuns e envolvem sofrimento, perda de auto-estima, humilhação, desespero e abandono. E mesmo imerso em um ambiente onde a falta de perspectiva parece dominar, é possível encontrar histórias de amor, caridade e superação.
PASSADO
Daniel é ex-dependente de álcool. Trabalhou, segundo ele, como peão em fazendas de “gente importante” de Franca com sobrenomes conhecidos como Bittar e Kamel. Gostava da lida diária no campo e se lembra de quando a bebida era apenas um divertimento. “Tempos bons aqueles”, diz. O alcoolismo o pegou, como na maioria dos casos, de forma acachapante, e o jogou na sarjeta, literalmente.
Segundo seus relatos, há uns cinco anos, vivia na Praça Barão sujo, vestido em farrapos, pedindo esmolas para manter o vício do álcool. Há três anos passou a freqüentar o abrigo, levado sempre pela Guarda Civil. Voltava às ruas no dia seguinte. Há um ano, mais ou menos, começou a se ocupar na manutenção diária do local. Deixou aos poucos de sair do abrigo para beber. Hoje, entre uma recaída e outra pensa no que seria seu futuro se não deixasse o álcool. “Certamente eu não estaria aqui conversando com você”, disse.
O caso de Roberto de Souza é parecido. Na rua, o “Ratinho”, como era conhecido, dormiu debaixo de marquises ao relento por anos. Vivia perambulando pela Estação, Praça Barão, Praça Nossa Senhora da Conceição. A bebida o separou da família, de quem tem poucas lembranças. Há seis meses “sem pôr um gole na boca”, não quer saber mais de álcool e se orgulha de ser o horticultor do Abrigo. Com seu trabalho, abastece a cozinha local com repolho, mandioca, cebolinha, beterraba, alface, cenoura, couve. O almoço de sexta-feira, por exemplo, tinha alguns ingredientes de sua horta no cardápio.
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CASA
Maurina Vieira dos Santos tem 30 anos e quatro filhos. Foi parar no abrigo em janeiro passado, quando seu filho de 9 anos sofreu queimaduras de terceiro grau pelo corpo em uma fazenda na região de Franca. Passou o Natal angustiada com seu filho no CTI. Aos poucos, o garoto melhorou e agora recebe tratamento periódico na Santa Casa e a cada quinze dias tem que estar em Bauru, no Hospital para Queimados.
Para cumprir todo o cronograma de tratamento, seu filho fica na Casa do Aconchego, onde recebe apoio e medicamentos. Sem dinheiro, emprego e muito menos para onde ir, Maurina Vieira foi levada junto com seus outros três filhos para o abrigo. “Minha casa hoje é aqui”, diz a mineira de Teófilo Otoni, que agora recebe a visita do marido na ala feminina do Abrigo Provisório.
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