Fui aluno do professor Sérgio Leça. Homem integro, professor competente, digno, admirado por todos. Por ocasião de sua morte a consternação foi grande. Alunos, ex-alunos, colegas de profissão, amigos e admiradores não se furtaram ao dever de render-lhe homenagens. Com seu nome batizaram uma escola estadual. Justa homenagem, justíssima. O professor eternizado, reconhecido, homenageado.
Mas os tempos são outros. Quando fui aluno dele o máximo que a gente levava para a escola era goma de mascar, daquelas com tinta azul dentro, só para pregar uma peça num amigo. Hoje em dia não. Os moleques levam maconha mesmo.
Na minha época a gente ia para a escola para aprender o que os nossos pais não sabiam ensinar – Matemática, Português, História, Geografia. A gente ia para aprender Ciências, porque educação a gente já levava de casa. Hoje em dia não. Os moleques querem mais é transar com as meninas e se tiver jeito até com alguma professora mais gatinha (sic).
Na minha época a gente ia para escola porque lá é que era lugar seguro, de instrução boa, como dizia minha avó. Quem ia para a escola tinha chance de ser alguém na vida. De melhorar de situação, de dar para a família um futuro melhor. Hoje em dia não. Os moleques vão para armar o esquema do final de semana, para marcar o encontro da gangue e para quebrar geral.
Na minha época escola era coisa sagrada, tinha até gente que repetia o ano. Hoje em dia não. Os moleques não têm medo de serem reprovados. A progressão é continuada.
Na época em que eu era aluno do professor Sérgio Leça, o aluno admirava e respeitava professor. Hoje em dia não. Os moleques apavoram, e fazem dos professores seus alvos prediletos.
Na época que eu era aluno do professor Sérgio Leça, gente era gente, aluno era aluno, professor era professor. Hoje em dia não. Agora gente é objeto, aluno é mula e professor é trouxa.
Gente descartável. Mula de carga. Trouxa de um sistema que a cada dia se vê solapado pela omissão de muitos e pelos interesses de tantos outros. Fiquei pensando nisso tudo depois de ver que na escola na qual meu admirado professor Sérgio Leça teve seu nome gravado, uma criança de 10 anos foi surpreendida portando droga.
Sem palavras para definir meus sentimentos sobre o fato, talvez tenha minha mente se ocupado com a tentativa de resgatar o que de bom se vivia no ambiente escolar.
Quando o professor Sérgio Leça morreu, fiquei triste. Quando foi homenageado, me emocionei. Quando li a manchete de quarta-feira do Comércio da Franca, me vi sem esperanças.
Alexandre Leonel
Farmacêutico e integrante do Conselho de Leitores do Comércio da Franca
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