De merendeira a pop-star, Tati Quebra-Barraco se transformou


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Já passava das duas da manhã quando alguém da organização do show chegou perto e perguntou se gostaria de conversar com a cantora. Confesso que não tinha preparado nenhum roteiro de perguntas para a moça, portanto, não sabia o que ia perguntar. Conduzidos, eu e o fotógrafo fomos até o camarim. À porta, como não poderia deixar de ser, dois leões-de-chácara com paletós pretos e braços cruzados na altura da cintura. “Como assim, vão importunar a moça em um momento crucial como esse?”, devem ter pensado ao ver que a reportagem passava por eles. A sala que a organização do show de Tati QB reservou à artista era paupérrima. Para ser mais justo, não tinha nem acomodação para toda a equipe, que se arrumou em alguns degraus que ligavam a saleta ao palco, um sofá e algumas cadeiras. As paredes meio azuladas e uma iluminação fraca emprestavam ar ainda mais decadente ao cubículo. Ao transpor a porta, vi, lado esquerdo, próximo ao aparador com espelho, a musa funk em um corpete jeans justíssimo e uma calça jeans mais ainda. Longe de ser uma beldade, e algumas lipos assumidas, estava com os cabelos devidamente chapeados e platinados. Ei-la, enfim, Tati Quebra-Barraco. Sorvia uísque em um enorme copo plástico desses de chope. Não vi as garrafas de Amarula, nem no palco, das quais, dizem, não se separa. Simpática, devo dizer. Conversamos alguns poucos minutos, nada muito particular. Primeira vez em Franca, cinco horas de carro a partir de São Paulo. Que coisa, veio para a terra do sapato para um único show! A conversa quase parou por aí, quando tive a brilhante idéia de perguntar sobre o público, um tanto pequeno, que a esperava e se isso importava. Será que Tati Quebra-Barraco está com a carreira em declínio, pensei eu. “Não importa”, disse ela, sorridente. “Se tiver dez pessoas aí fora, vou cantar do mesmo jeito”, emendou, lembrando que antes da consagração em São Paulo, após já fazer sucesso no Rio, era para um público desse ou pouco maior que se apresentava. A diferença, destacou, é que o começo para os paulistanos foi em festa de “riquinhos”. Para quem era merendeira em uma creche em Cidade de Deus, no Rio, nada mal. Coisa de dois ou três anos, quando “Boladona” estourou, mais lá que aqui, eram perto de R$ 250 mil garantidos por mês entre festinhas particulares e shows. Hoje, naturalmente é bem menos. “No começo, meu querido, eram R$ 50 de cachê. No fim, não dava nem para o ônibus de volta para a casa”, disse a musa. De funk em funk, a moça foi enchendo o caixa. Assessorada pelo irmão Márcio, ex-vendedor de quentinhas, agora alçado ao posto de compositor, Tati usou bem o dinheiro inesperado que ganhou. Em seis anos foram mais de 20 cirurgias para dar uma recauchutada no corpinho que chegou a modestos 92 quilos. Da pobretona do morro - “ratos mordiam meu pé no barraco que eu morava” - transformou-se em uma consumista voraz. Sabe-se que só de calças Gang, que as cachorronas usam, são umas 900. Tênis, uns 200 pares. Cordão de ouro de R$ 15 mil é bobagem. Nada mal para quem, aos 28 anos, dois maridos assassinados, só estudou até a quarta série. Impressionante! Não pude deixar de pensar na transformação que a cultura promove nas pessoas.

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