A noite de sexta-feira tinha tudo para ser tranqüila. Chegaria em casa, algum filme para ver, tomaria um chocolate quente e dormiria com a televisão ligada. Essas seriam minhas metas. Mas na quinta, a chefe de reportagem do Comércio me ligou com a proposta imperdível de um show que haveria em Franca e, em suas palavras, era a minha ‘cara’.
Tatiana Santos Lourenço, cantora de projeção nacional e, por que não, internacional, estaria em Franca para uma única apresentação. Proposta aceita, passo o dia me preparando para a empreitada. Eu, em um show de uma das maiores musas da cultura de massa desse País? Quanta honra!
A noite de sexta-feira chega. A saída, marcada para a meia-noite atrasa um pouco; coisa de meia hora. Dentro do carro da reportagem eu e o fotógrafo Tiago Brandão chegamos ao templo onde o show deveria começar sabe-se lá que horas.
O local é simples, logo depois do Franca Shopping. Nenhuma ostentação, néons, luminosos, outdoors, cambistas, nada. Chamando a atenção apenas as quatro viaturas da PM estacionadas sobre o canteiro. Tudo pela ordem.
Ao dar uma olhada no entorno, a ficha cai. Estou às portas de um show de funk com ninguém menos que Tati Quebra-Barraco. “Pai abençoado, o que estou fazendo aqui?”, questionei baixo para que os manos não percebessem que eu não fazia parte da turma.
Vi que a noite não seria fácil nos primeiros segundos. Enquanto via o cardápio do Furacão Drinks, estrategicamente montado em frente à entrada da casa, escutava um refrão impopular aos meus ouvidos: “eu vou pro baile procurar o meu negão/agora eu tô solteira e ninguém vai me segurar... eu sou cachorra”. Cruzes!
Vou ser: tentei me despir de todo e qualquer preconceito, mas fracassei depois que passei pela cortina preta e pelos seguranças na entrada em seus ternos de uso múltiplo, também pretos, como convém.
Dentro do “ambiente” do show fiquei boquiaberto, olhando para os lados, para o fotógrafo Brandão e para o nosso motorista, como naqueles momentos em que você cai de bruços no chão, perde a respiração e não consegue falar nada.
Para a maioria, ou a totalidade, das pessoas que estavam ali, minha surpresa não tem o menor sentido. Em um público predominante de 20 anos, é natural que um quase quarentão se choque. Afinal, os tempos são outros.
Mas eu não estava pronto para ver aquelas meninas, algumas quase crianças, em suas não-roupas, não-calças, não-blusas. Eu sabia que aquilo tudo existia, mas meu coração não estava pronto para aquilo tudo.
Duas da manhã, e Tati Quebra-Barraco não entra. Nesse tempo todo - já estamos há mais de uma hora sob um som ensurdecedor -tocaram as maiores pérolas do cancioneiro funk-carioca nacional. Vendo um trio de amigas dançando todas as músicas com a mesma coreografia, arrisco perguntar, aos berros, quantas horas por dia elas ouvem aquele tipo de música. “Ah, a gente ouve de domingo a domingo, o dia todo”. Está explicado. Pergunto a Jaqueline, 15, primeiro ano do ensino médio, da vila Santa Cruz, quem a trouxe. “Foi meu pai, mas ‘cê’ não vai dizer que foi ele, né?”.
Olho para trás e o bar, apropriadamente chamado de “Over Drinks”, oferece batidas Lagoa Azul e Nevada a R$ 5; energéticos a R$ 7. Preço honesto. Mas as campeãs da noite são uma vodca barata, de garrafinha, e cerveja que, não me perguntem, os rapazes bebiam de canudinho. Talvez para durar mais.
No palco, DJs se esforçavam para estimular o lado, digamos, predador da molecada. É impressionante o que acontece. Entre as 21 vezes que contei “daqui a pouco, Tati Quebra-Barraco”, meninas e meninos ignoravam completamente a palavra flerte (como assim, flerte?) e partiam para amassos que, com uma respiração a mais, já podiam ser considerados ato sexual.
As meninas vão rebolando e a temperatura - minha, também -, subindo. Arrisco a não olhar para uma morena, 19 anos, talvez 20, alta, na minha frente. A moça, por assim dizer, desinibida, dançou de uma forma bem expansiva, atraindo a atenção de metade do público masculino. Sua amiguinha, uma baixinha clara, de saia plissada vermelha e um top preto, fez jus à denominação de cachorrona. Ah, se o pai dessa menina soubesse o que ela fez lá dentro! Que eu pude contar, foram três marmanjos beijados.
E o negócio é maluco. Opa, quero dizer, o negócio é esquisito, porque chega, beija e vai embora. Onde está a euforia da conquista, meus amigos? Nada disso. Há os que “pegam” e os que olham. Mas a noite, definitivamente, é das mulheres, que arrasam com suas agachadinhas lânguidas.
Até no modo de vestir, é diferente. Enquanto elas colocam suas micropeças, calças apertadas, vestidos e blusas curtas, eles vão como uns molambos. Quase todos com jaquetas de frio de marcas famosas com a gola fechada até o pescoço. Duvido que sejam verdadeiras. Bermudão e gorros completam o visual. Não vi camisetas do Timão, mas do São Paulo, sim. Será que há uma mudança de gosto musical?
[FOTO2]
“Daqui a cinco segundos, Tati Quebra-Barraco”. E eis que chega uma das horas que eu mais temia. Em seqüência tocam os malditos Creu e Bonde do Tigrão. Outras espantosas composições também tocaram: “Quero você até de manhã/então tira meu sutiã”. Gostei dessa; mais poética.
Com a audição debilitada e a saúde, quase, pergunto a um impaciente segurança, o que ele faria se tivesse uma metralhadora naquele momento. A resposta foi óbvia.
Enfim, depois de um improvável “se eu pedir você me dá? Uma sentadinha no sofá”, dois, teoricamente, invertebrados bailarinos aparecem no palco. Em seguida, os fãs ensandecidos (uns 500 ou 600), em catarse total, vêem sua deusa bonitona e recauchutada surgir em meio à luz azul do canhão (de luz).
É ela quem surge. O hit Boladona vem logo em seguida. Que espetáculo essa moça meio estátua, de voz fanhosa. Faço sinal para o fotógrafo; ele concorda. O motorista, idem. Saímos sem ouvir a segunda música.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.