Sobre o caso Isabella


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O caso Isabella Nardoni é emblemático do extremismo no emaranhado de afetos presente nas modernas configurações familiares. O que se tem, na mídia, é a atrocidade consumada, a cobertura dos fatos que vão se apresentando e tornando indiscutível a culpa do pai e da madrasta na morte da menina. O que não se diz, contudo, é do cenário a tornar possível tal desfecho exceto que: dois jovens tiveram uma filha e logo se separaram. A mãe seguiu em frente, arranjou namorado e trabalho; o pai, casou-se, teve dois outros filhos. A equação, no caso, é potencialmente explosiva. Desse relacionamento fracassado restou a filha a se interpor entre os novos caminhos de ambos. É hipocrisia ou ingenuidade pensar que jovens recomeçando relações afetivas estejam maduros para lidar com a responsabilidade de uma criança em suas vidas, se o que mais desejam é desligar-se definitivamente um do outro. Pior é quando tal desligamento não ocorre de uma ou de ambas as partes e um dos membros do casal passa a usar inconseqüentemente a criança, seja para atormentar a vida do outro com cobranças mesquinhas, seja para causar raiva, ciúmes e ambivalência no novo parceiro(a). O estrago está feito quando esse novo parceiro(a) não tem equilíbrio emocional para lidar com situação tão delicada e coloca a criança como a culpada da atualidade na contenda do ex-casal. Senão pela concretização de impulsos destrutivos, o saldo é muitas vezes triste: algumas dessas crianças se tornam, não raro, vítimas de tortura psicológica, desprezo, abandono velado. Casos de ciúmes e ressentimentos em relações com filhos vindos de outras uniões são corriqueiros. E não será exagero dizer que filhos se tornam, para muitos, um fardo, uma renitência indesejada: mamãe precisa curtir a juventude, espairecer, arranjar namorado, então “papai, é a sua vez de ficar com ela no final de semana”. Papai, de mulher nova, acha um incômodo, mas aceita a incumbência, à revelia da madrasta, que, por sua vez, se ofende em ter de “pajear” a filha de sua ex-oponente. Mamãe nem se atenta à notória volatilidade do casal, senão violência, já sua velha conhecida; não quer pensar nisso, não é momento de reconhecer, com todos os indícios apontando para isto, que sua filha corre risco junto a esses dois desvairados. Há uma vida pulsante à sua espera! Os avós paternos tentam remediar daqui, acudir dali seu “menino mimado”: esquentado, ele, sustentado pelo pai, diga-se e que aos 30 anos ainda não se inaugurou, de fato, nas renúncias e responsabilidades da vida adulta. Num sábado, menos de duas horas depois de passear alegremente pelo supermercado ao lado dos irmãozinhos, do pai e da madrasta, essa criança estará morta, vítima de espancamento, estrangulamento e friamente atirada do sexto andar de um prédio. Esse retrato indiscreto e arrevesado do simulacro de felicidade dentro das famílias revela a obscuridade dos afetos em seu interior. A imagem mítica da família acolhedora, da proteção paterna presumida se esfacela e nos arremessa talvez no mais profundo desamparo humano, num questionamento que a filósofa Dulce Critelli fez na semana passada: se não estou seguro e abençoado na casa de meu próprio pai, onde mais estarei? O que era então uma forma sofisticada de abandono, um empurra-empurra inominado vai se tornando incontrolável. Em que momento a inofensiva criancinha de cinco anos virou a materialização daquilo que no relacionamento de Anna Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni deveria ser banido? Um corpo tornado coisa e representação de passado e presente indesejados. Um corpinho que, atirado da janela, continuará entre esses dois, arrebentando também com o futuro de seus outros filhos – esses que talvez estivessem, ao lado de pais assim, sujeitos a violência semelhante. Isabella, de quem queriam se livrar a todo custo, permanecerá entre Nardoni e Jatobá como o espelho de sua selvageria, falta de compaixão e incapacidade de amar. Vanessa Maranha Psicóloga, jornalista e escritora

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