Mais cuidado


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Quase tudo já foi dito ou escrito, nos últimos 22 dias, sobre o covarde assassinato da menina Isabella. Apenas três semanas bastaram para que a polícia e a perícia - de forma surpreendente para um país acostumado a conviver com crimes sem solução - anunciassem estar próximas da elucidação do caso. Tudo praticamente sem evidências factuais, com base em provas circunstanciais e num curioso - e perigoso - princípio de exclusão: como a perícia não encontrou indícios de que qualquer pessoa além de Alexandre (o pai), Anna Carolina (a madrasta), seus filhos pequenos e a vítima Isabella estiveram no apartamento, logo o autor só pode ser um deles. Não é demais lembrar que, considerando a tecnologia utilizada por nossas forças policiais, não encontrar indícios necessariamente não implica dizer que não existam. A mídia, de modo geral, cumpriu seu papel. Apresentou tantos fatos e pontos de vista quanto possível, respeitando a versão dos acusados e deixando claro aos leitores o que está comprovado e o que é uma possibilidade aventada por alguém. Em linhas gerais, a imprensa respeitou estas premissas e tratou o mistério que cerca o assassinato com seriedade e relativa cautela, salvo uma ou outra exceção por conta de programas de TV menos criteriosos. Por isso mesmo, é de assustar a velocidade com que os brasileiros condenaram Alexandre e Anna Carolina ainda mais rápido do que a própria polícia. Não tenho dúvidas de que uma enquete, realizada em qualquer ponto do país, indicaria que a esmagadora maioria dos votantes acredita na culpa do casal. E que se pudessem, fariam justiça com as próprias mãos, sem nem mesmo ouvir o que os acusados têm a dizer. Milhões de brasileiros parecem sedentos de sangue. São mães que levam filhos para a porta da delegacia empunhando cartazes pedindo justiça. A residência dos avós paternos de Isabella, onde o casal está abrigado, foi apedrejada. Imóveis vizinhos foram pichados com frases que culpam o casal e incitam a violência. Para que pudessem depor, foi necessário um aparato de segurança normalmente reservado aos chefes de Estado. E ambos entraram e saíram da delegacia sob gritos de ‘lincha, lincha’ e ‘assassinos’. É quase certo que Isabella tenha sido morta pelos acusados. Há vestígios de sangue no carro, uma provável marca de chinelo no lençol, o porteiro diz que viu todos subirem juntos pelo elevador e a polícia disse ter encontrado pedaços de nylon na bermuda de Alexandre que podem ser da tela cortada por onde Isabella foi atirada ao solo. Ainda assim, os dois negam o crime. As provas são circunstanciais e um outro vídeo, a que o Brasil inteiro já assistiu, mostra uma família feliz fazendo compras no supermercado, com direito a madrasta segurando a mão da enteada e nenhuma sequência que denote irritação, horas antes da menina ser assassinada. E apesar de informações desencontradas sobre o grau de violência de Alexandre, o fato é que quinzenalmente Isabella freqüentava a casa do pai e, tudo indica, gostava dos momentos que passava com ele. Seguimos todos atiçados em busca de respostas que nos livrem do desassossego. Foram eles? Qual o motivo? O que faria um pai atirar a filha do alto de um edifício? Que sentimento seria capaz de fazer um pai assistir a filha ser esganada por sua mulher? Até que tenhamos ao menos algumas destas respostas, um mínimo de cautela e respeito com as acusados seria bem-vindo. ERREI: Diferente do publicado na Gazetilha da semana passada, o médico Marco Aurélio Ubiali, do PSB, tinha 56 anos, e não mais de 60, quando foi eleito deputado federal. CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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