São passados 24 dias da colisão frontal entre um caminhão desgovernado na serra de Rifaina, carregado de pisos, e uma Kombi, da Prefeitura daquela cidade, carregada de gente. O saldo, quatro mortos e dois sobreviventes, internados ainda na Santa Casa de Franca.
De prático, absolutamente nada foi feito para resolver o local chamado “curva da morte” – curva fechada à esquerda, morro de granito de um lado e desfiladeiro à direita – por onde correm as duas pistas da Cândido Portinari que roubaram 28 vidas em seis dias.
Quem dirige de Rifaina com destino a Pedregulho começa a rezar um ou dois quilômetros antes da “curva”. Naquele trecho, não há como prever o que vem lá e como vem de lá. Sabe aquela história dos sonhos – e quem já não os teve – quando é necessário correr e as pernas não ajudam? Igual. Não há como e nem para onde correr. Dá para imaginar o desespero de quem se coloca ali, no momento errado.
Em Rifaina, há medo no ar. Este medo se torna quase palpável todos os dias, por volta das 17h30, quando chega a hora de dois ônibus deixarem a cidade, conduzindo em torno de 90 estudantes a Franca. E piora, quando se pensa no retorno, por volta das 23, 24 horas, quando retornam. Nos últimos tempos, a fiscalização sobre a performance dos motoristas aumentou. Aliás, não apenas fiscalização da parte da prefeitura, mas também dos próprios condutores. “Na hora de subir a serra, atenção com que vem; na hora de descer, atenção redobrada consigo mesmo, motor engatado, velocidade mínima, 20 a 30 minutos para passar aquele trecho até a cidade”, como me disse o Secretário de Turismo local, Cláudio Masson, ele que perdeu um irmão no acidente horrível de 24 dias atrás.
“Há, Luiz Neto, muito medo no ar”, disse ele. “Converso com os rancheiros, com comerciantes, com turistas, com gente comum e a palavra é uma só: subir e descer rezando. E, se for possível, não ir...”.
Quando um ônibus de estudantes de Sacramento despencou no penhasco do lado direito da descida da curva, há alguns anos e matou mais de 20 pessoas, estabeleceu-se comoção nacional sobre a premência de solução para o local. Nada. Alguns dos mais antigos moradores da região – eleitores – arriscaram: “não vão autorizar nada para dar fim à curva. Veja lá se vão mandar dinheiro para a região de Orestes Quércia”. Sabedoria matuta, como diria o conselheiro Ricardo Veríssimo Júnior, do Comércio? Talvez...
E acidentes se sucederam. Mais vidas se perderam. Aliás, uma no final da semana passada, quando outro caminhão despencou lá e matou seu motorista.
Perguntei ao secretário Cláudio sobre “novidades” a respeito do anúncio de licitação para uma ponte, feito pela Secretaria Estadual dos Transportes. Depois de um silêncio constrangido, ele me deu um “não sei de nada...”. Foi quase um desabafo de tristeza, descrença, consciência do desprestígio político desta região.
Voltam à lembrança os sistemáticos anúncios de duplicação para a Franca-Rifaina, objeto de out-doors pela estrada. Os repórteres experientes do Comércio, que todos os dias monitoram os passos – de tartaruga – burocráticos das conversações palacianas, me confidenciaram ao pé-do-ouvido que “a duplicação não sairá, porque os técnicos dizem que não há número adequado de circulação de veículos na estrada entre Pedregulho e Rifaina, capaz de sustentar duplicação”. E a última me deixou ainda mais descrente: o projeto inicial, da tal ponte, que “sobrevoaria” o desfiladeiro, não poderá ser feita reta, rumo à parte menos perigosa da estrada, lá embaixo. Terá que ter também... uma curva!!! Uau!!! Outra curva...
CENA I
Silvia Rezende, assistente social que empresta serviços ao Fundo de Solidariedade de Rifaina, disse a um dos repórteres do Comércio que “dá para ver o medo e o terror estampados no rosto das pessoas que têm ou tiveram problemas com a estrada.” Uma delas, mãe de uma das garotas sobreviventes do acidente caminhão X Kombi, não arredou pé um único momento, nestes últimos 24 dias, da filha, internada na Santa Casa de Franca. Ela não quer sair de perto porque não sabe o que a estrada fatídica pode lhe reservar.
CENA II
O prefeito Hugo Lourenço, de Rifaina, colocou a perua do Fundo de Solidariedade do município para substituir a daquele dia fatídico. Vem sendo dirigida por funcionário do próprio Fundo e transportando alunos da APAE de Franca e gente que “é obrigada” a viajar a Franca quase diariamente. “Redobram os cuidados”, disse Cláudio Masson, mas “rezam muito, todos os dias”.
CENA III
Dezenas de leitores do Comércio continuam enviando e-mails e cartas com sugestões para a “curva da morte”. Parece que decidiram não deixar o assunto morrer. Dentre as idéias que podem servir de lenitivo enquanto a ponte não vem, estão radares que fiscalizem e multem “pesadamente” velocidade acima de 30, 40 quilômetros, ao longo da descida; lombadas eletrônicas a poucos metros uma das outras. Gente que circula naquelas redondezas há muito tempo, sugere outros caminhos: quebrar o morro, abrir um túnel... nada que seja para agora, ou para curto prazo. Igual à ponte. Para algum dia...
Luiz Neto é jornalista, radialista e mestre cerimonialista, é editor de Opinião e gestor de Relações Corporativas do Comércio da Franca
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