Vá roubar, moço!


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A frase “vá roubar, moço!” foi falada em alto e bom som por uma respeitosa e indignada senhora que acabara de testemunhar uma abordagem de fiscais a um artista de rua que naquele instante riscava os traços finais de um desenho perfeito. Ele teria sido reprimido e “convidado” a se retirar do local público que ocupava pelos “pretorianos” das “insignes” decisões que em muito agradam os amigos do rei... Era apenas um artista de rua itinerante buscando a sobrevivência e recebendo colaborações por sua arte. Ele tem sua atividade assegurada pela livre manifestação artística prevista no Art. 5º da Carta Magna. Censurá-lo é, portando, desaconselhável para governos que “se dizem” democráticos. Nas mãos do moço havia uma prancheta, folhas de papel, lápis e borracha. E, no seu íntimo, embora a previsibilidade do risco em ter confiscado o seu material pela “repressão”, tinha a convicção que jamais lhe tirariam o talento para seu trabalho... e nem o “belo” reproduzido no desenho perfeito da face feminina que finalizou rapidamente no papel, assinando a obra e presenteando a cidadã que se desmanchava em risos de contentamento. Como um cão enxotado era nítido seu olhar tristonho perante dezenas de pessoas. Ele não entendia nada, mas o tempo urgia e seus algozes aguardavam a ordem de retirada ser cumprida. Acondicionou seu material numa bolsa onde também havia uma garrafinha d’água. Levou-a à boca como se contivesse um revigorante que o fizesse ganhar forças para recompor-se, tomou um gole, ergueu a cabeça e despediu-se atenciosamente de seu público. Seguiu caminho ignorado. Entendi perfeitamente o “vá roubar, moço!” que aquela senhora disse ao artista no momento que o impediram de trabalhar. Noutras palavras, se trabalhar não pode, então vá roubar. A frase foi de impacto e me convidou à reflexão sobre os deveres das pessoas que exercem função pública em fiscalizar, não as cumprindo à altura, como exemplo: o desrespeitoso atendimento de alguns bancos e suas filas absurdas; as mesas e cadeiras de estabelecimentos comerciais nas calçadas; a fedentina do chorume de lixo na região central; poluição sonora dos carros de som pelas ruas da cidade e das caixas de som de lojas anunciando produtos não respeitando os decibéis que a lei permite; a poluição visual desenfreada carregando nossas mentes de propagandas que tiram a atenção do trânsito; caçambas de entulhos mal colocadas e mal sinalizadas na via pública; obras clandestinas; matagal em terrenos baldios comprometendo a segurança da população. Etc, etc e etc. Se tivesse a chance em trocar uma palavrinha com o artista, complementaria o conselho daquela senhora, assim: se resolver roubar, moço, faça em grande estilo. Torne-se um político corrupto. De certa forma, enganar a quase todos também é uma arte... Ricardo Veríssimo Júnior Funcionário público, ex-integrante do Conselho de Saúde e conselheiro do Comércio

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