A dengue e a negligência


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Oitenta e cinco anos depois de erradicada, a dengue volta a matar tanto ou mais do que nos tempos em que o Brasil era um pais rural e tecnologicamente atrasado. A população carioca vive o terror do ataque da doença e da falta de assistência. O rico Estado de São Paulo possui cidades onde os casos também avançam perigosamente e o povo sente-se acuado e amedrontado. O Brasil teve epidemias de dengue em meados do Século XIX e depois só nos anos de 1916, no Rio e 1923 em São Paulo. A história diz, com propriedade, que o eficiente controle do mosquito transmissor livrou-nos da doença por décadas. Contudo, o inseto reapareceu em 1967 e a doença em 1981. A partir daí, a contumaz negligência dos governos, das autoridades da saúde e até da própria população, nos conduziu ao quadro de sofrimento e morte hoje instalado no Rio e lactente em outros pontos do território nacional. Em 1903, o incompreendido sanitarista Oswaldo Cruz debelou a febre amarela matando os mosquitos transmissores (que são os mesmos da dengue). Com todas as dificuldades próprias da época, 20 anos depois, a doença passava a ser considerada extinta em razão da ausência do seu veículo de transmissão. Por muito tempo isso foi ensinado nas escolas como motivo de orgulho pátrio. Nos anos 60, quando o bichinho ressurgiu, o mínimo que se esperava era a repetição do feito de Oswaldo Cruz, sem qualquer nova invenção. Mas não o fizeram e as moléstias voltaram a nos atacar. Ainda era tempo em 1981, quando surgiram os primeiros casos de dengue, em Roraima. Mas o descaso continuou, o mal alastrou-se, houveram epidemias e nos últimos anos já temos a forma hemorrágica, que mata. A falta de atenção das autoridades está explicita na declaração do próprio ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que ao lançar a campanha nacional contra a doença, meses atrás, disse ser ‘injustificável’ e ‘inadmissível’ que o Brasil fosse atingido por uma nova epidemia. A epidemia está aí, ameaçadora, e o que fazem (além de discursos) as autoridades, que só no atual governo já estão em seus postos há quase sete anos? As mortes pela dengue constituem um libelo contra a incompetência e a imprevidência de sucessivos governos e suas autoridades sanitárias. Por falta de interesse público, não preservaram nem aquilo que receberam de Oswaldo Cruz há mais de 100 anos. Hoje, apesar de todo o avanço econômico e tecnológico, temos uma situação beirando o incontrolável incontrolável. O quadro é a prova de que nenhuma tecnologia ou dinheiro no bolso são eficientes quando o governo e o homem são relapsos ou negligentes. Se atuasse hoje, o festejado doutor Oswaldo Cruz certamente teria de confrontar-se com os ecologistas para conseguir matar os mosquitos nas florestas e reservas ambientais. As autoridades de hoje, além vencer o ranço preservacionista, têm de correr para evitar que a epidemia (de dengue) se transforme em pandemia. Dirceu Cardoso Gonçalves Dirigente da ASPOMIL - Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo

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