Cavaletes improvisados na calçada de pedra, pincéis e tintas sobre os bancos de plástico e aquarelas em mãos. No jardim, em meio às plantas e galhos, vários quadros expostos. Esta cena se repete há mais de um ano, todos os sábados, das 9 às 13 horas, na praça da Escola Estadual “Coronel Francisco Martins”, em frente à Feac (Fundação Esporte, Arte e Cultura). No “Jardim das Artes”, os artistas plásticos de Franca propõem uma forma diferente de divulgar a cultura na cidade. Lá, as pessoas podem parar para observar cada pincelada, cada detalhe, cada cor e traço, além disso podem comprar, pelo preço de R$ 20 a R$ 500, e levar para casa as obras com que se identificarem.
No local há espaço para tudo: cantar, conversar, discutir os acontecimentos nacionais, trocar experiências, opiniões e tintas, relaxar, aprender... Nem mesmo com toda a poluição sonora da rua, os artistas se incomodam. Muitas pessoas passam de carro e moto e diminuem a velocidade para observar as telas, que ficam de frente para a rua. Faça sol ou chuva, os artistas estão lá. Sentados embaixo das árvores, eles aproveitam o ar fresco e a sombra para refletir e soltar a imaginação. “A arte não é comunicação e sim expressão”, ressalta Isaías, que acha muito bom o contato entre os artistas.
Dalva Machado se sente mais inspirada em contato com a natureza. “Em relação ao meu ateliê, aqui o ambiente é mais descontraído, faço a minha arte assistida por várias pessoas, recebo críticas e elogios”, disse.
Já Deco’s afirma também que muitos curiosos tentam “dar palpites” nas pinturas. “Quando a pessoa é leiga, não tem como aceitar a crítica, mas quando é alguém que tem um olhar mais crítico, tento absorver as opiniões”, explica.
No projeto municipal “Arte na Rua”, um dos principais objetivos dos artistas é popularizar as artes plásticas e vender as obras. Mas, mesmo com preços acessíveis, muitos quadros continuam “encalhados”. Carlos Macedo ressalta que os artistas não estão lá para brincar. “Isso é o nosso trabalho, a nossa fábrica, a nossa loja... Os instrumentos, tintas, telas, tudo vale dinheiro. Sinto satisfação em pintar, mas sinto maior prazer ainda em vender.”
A publicitária Karina Gera deixou a carreira para se dedicar à arte. Ela lembra que uma vez deu um quadro para um mendigo, que gostou da obra. “Dias depois ele disse que tinha vendido por R$ 50 porque não tinha casa. Fiquei inconformada porque eu não tinha conseguido vender”, comenta.
Mesmo assim, eles continuam lá. A cada conversa, uma imagem surge na tela. Durante o bate-papo uma pausa para matar a sede com um refrigerante bem gelado. A simplicidade é contrastada com a beleza dos quadros. “A arte não nos impõe nada, é livre”, comenta o artista Macedo, conhecido como “Tarsilão”, que trabalha acompanhado dos filhos Lucas, 14, e Débora, 7, que também tem a sua própria tela e usa e abusa da sua criatividade inocente.
Fábio Peixoto acredita que é uma oportunidade interessante para as pessoas que não têm idéia de como um quadro é feito. A sapateira Telma Cristina Camargo demonstra sua emoção ao apreciar as obras ainda inacabadas. Com o filho Davi, de 10 anos, ela conta que sente orgulho do quadro Girassóis, de Van Gogh, que o garoto pintou na escola. “Eu admiro muito o artista plástico. Tenho quadros em casa e consigo viajar através das telas”, disse.
A coleção de flores do Deco’s é a que mais chama a atenção de Telma. “Gosto de pintar neste ambiente diferente. É bom buscar coisas novas, desafios”, disse o artista.
A psicóloga Júlia Makiko Motobayashi Couto veio de São Paulo há um ano e por acaso passou pela praça. “Admiro. Acho lindo. Vou voltar mais vezes para ‘namorar’ as obras”, comentou.
Durante a caminhada matinal, o industrial José Henrique Bettarello, que tem 25 quadros em casa, pára para observar as pinturas. “É um projeto sensacional, valoriza a arte e fortalece a relação do público com o artista, pois a gente pode comprar uma obra conhecendo a história dela”, afirma.
No próximo sábado, aproveite o dia para fazer um programa diferente: o “Jardim das Artes” é uma opção de lazer cultural e enriquecedora para todas as idades e classes sociais. Vale a pena conferir!
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