Quem nunca discutiu ou brigou por um motivo fútil com alguma pessoa de quem gostava muito e depois se viu “forçado”, por sua própria consciência, a deixar o orgulho de lado e pedir desculpas? Essa situação certamente já aconteceu - e até se repetiu - na vida da maioria das pessoas. Até aí, nada de mais. É uma realidade vivida em todo tipo de convivência, seja amorosa, de amizade ou familiar. O problema é quando as diferenças são sérias a ponto de interromper relacionamentos. Nestes casos, fica a dúvida: como voltar atrás e se reconciliar?
Quem tomou esta decisão foi a vendedora Gianni Trovão, 20. Depois de três anos sem conversar com a ex-melhor amiga, Angélica Tavares, 19, ela telefonou e propôs uma “lavação de roupa”, aceita prontamente. A briga foi boba: Gianni e Angélica tinham amizade desde 2000, época em que estudavam juntas. Mas, depois que uma delas mudou de escola, o ciúme, típico em adolescentes, tomou conta da amizade até que, depois de muitos arranca-rabos, elas resolveram cortar relações. “Uma começou a falar mal da outra, fazer pirraça, brigar por causa de outras amigas, namorados, por tudo. Crescemos e não soubemos separar as desavenças da adolescência, daí passamos a nos evitar”, diz Angélica.
A conversa que levou à reconciliação foi longa: durou um sábado inteiro. Mas, no final, elas se acertaram. “Eu sabia que o tempo de escola ia terminar e eu podia talvez nunca mais encontrá-la, sem contar que comecei a sonhar com a Angélica toda noite. Foi difícil, mas tinha certeza que precisava procurá-la”, acrescenta Gianni. Atualmente, elas não se vêem com freqüência, mas se falam quase toda semana. “Foi uma bobeira, mas pedir desculpas nos fez entender o quanto a nossa amizade é valiosa”, afirmam.
Para as amigas, a reconciliação foi uma medida inteligente. Evitou que anos de relacionamento fossem jogados fora. E o distanciamento foi importante para isso. Psicólogos dizem que o ideal é deixar a raiva passar e a cabeça esfriar antes de fazer as pazes. “Podemos nos reconciliar ou não, de acordo com nossa auto-crítica, capacidade de compreender os conflitos e responsabilidade para assumir nossa parte. As desculpas da boca para fora não reconstroem vínculos legítimos e não nos tornam conscientes de nossos erros”, disse a psicóloga e analista do comportamento Marluce Fagundes.
A opinião é compartilhada pela também psicóloga Márcia Ricci. Para ela, é necessário avaliar se o afastamento faz mal ou bem às partes. E é preciso, no caso de perdoar, fazê-lo de corpo e alma. “A verdadeira reconciliação sempre vale a pena, mesmo que tardia. Por isso o segredo é entender o que aconteceu de cabeça vazia”, afirma.
E acredite se quiser: uma simples conversa é o método mais eficaz para pedir desculpas. Mas este diálogo não significa despejar todas as reclamações em cima da outra pessoa. Falar de si mesmo é a melhor opção para fazer as pazes. “Quando uma parte não pára de apontar os defeitos a- lheios a outra se arma e pode interpretar tudo como acusação. Assim, dificilmente será resolvida alguma coisa”, diz Márcia.
E SE NÃO DER CERTO?
Pedir desculpas é uma atitude corajosa, mas lembre-se: coragem não é sinônimo de sucesso. Depois de uma briga, é preciso estar preparado para tudo, inclusive para lidar com a indiferença ou incompreensão do outro.
A estudante Iara*, 18, teve de enfrentar essa realidade. Seus pais são separados e ela morava com o pai. Há quase quatro anos, porém, Iara decidiu viver com a mãe. Desde então, seu pai se recusa a conversar com ela. “Eu já tentei várias vezes ligar, mas ele desliga na minha cara, me ignora. Gostaria muito que pudesse dar tudo certo, mais do que tudo na vida. Eu amo muito meu pai e é muito ruim ficar longe”, lamenta.
As profissionais são unânimes em dizer que, nesse caso, a saída é se conformar com a sensação de dever cumprido. Afinal, não há como obrigar uma pessoa a pensar como você. “Pedimos desculpas pelo outro, ou por nós mesmos? Se o desejo de reconciliação é verdadeiro, façamos nossa parte”, diz Marluce.
No caso de Iara a saída é tentar esquecer o que aconteceu e dar tempo ao tempo. Para isso, conta com o apoio do restante da família. “Eles tentam me ajudar ao máximo, mas evitamos falar muito nisso, pois é um assunto desagradável para todo mundo”, afirma a estudante.
CONTROVÉRSIA
De acordo com Márcia, as brigas familiares são mais sérias que as travadas contra amigos e namorados. No segundo caso, há a possibilidade de se fazer novas amizades e construir outros relacionamentos, já com a família o ciclo de convivência é eterno.
“Os sentimentos são muito mais intensos”, explica Márcia.
Já Marluce entende que o impacto de um rompimento é relativo e alheio aos laços de parentesco. “Depende da família, do amigo, do namorado e, principalmente, do tipo de desavença que se pretende resolver”.
* Nome fictício
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