Mais um dia


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Em Os pergaminhos do maior vendedor do mundo, Og Mandino escreveu: “Viverei hoje como se fosse o meu último dia. (...) Não desperdiçarei um só segundo pensando no passado nem tampouco no futuro porque não posso transportá-los para o meu dia de hoje”. Li na internet a seguinte “mensagem de esperança”, baseada no texto do escritor italiano: “Viva o dia de hoje como se fosse o último de sua vida. Lembre-se de que só existe “amanhã” nos calendários dos tolos. Esqueça as derrotas de ontem e ignore os problemas de amanhã”. Dá para levar ao pé da letra? Para mim, não. É necessário tirar o manto escuro da ilusão que cobre tudo isso e fazer a interpretação à luz da realidade. A dádiva da existência deve estimular cada um de nós a viver intensamente cada momento. Mas não quer dizer que se deve ignorar o futuro e o passado, até porque isso é impossível. Eu já escrevi que o futuro não existe, mas hoje penso diferente. Não dá para ignorar o amanhã. Partindo da premissa de que os sentidos só podem funcionar simultaneamente com o que ocorre agora, o único tempo inteiramente sensível é de fato o presente. Porém, a vida é uma sucessão de fatos, é o avanço do tempo. Hoje é o futuro de ontem. Cada novo dia é futuro em relação aos dias pretéritos. Quem agora colhe o que plantou está vivendo o seu futuro. A fase adulta é o futuro da adolescência. O que impulsiona a maior parte das nossas ações, do nosso pensamento é o futuro. Quem se deita para dormir quer descansar para enfrentar o dia seguinte. A mãe que leva o filho à escola está pensando no futuro dele e na satisfação dela. O estudante que se debruça sobre os livros para aprender o máximo possível, deixando de lado outras coisas, visa o quê? O futuro. Viver intensamente não quer dizer que se pode sair por aí fazendo tudo que der na telha, sem se importar com o que pode advir. Significa que, na medida do possível, deve-se concentrar naquilo que está fazendo, evitar a dispersão do pensamento e das energias, pois querer fazer várias coisas a um só tempo resulta em que nenhuma delas sai a contento. É preciso aproveitar a vida, fazer o que se deseja ou se precisa fazer enquanto é possível. Um erro deve ser reparado o quanto antes. Atos e palavras que buscam resgatar a harmonia, a paz de espírito, não devem ser deixados para depois. Erros cometidos não podem ser olvidados, pois assim se evita que sejam repetidos. O futuro, por sua vez, é o que dá sentido a muitas coisas. Viver é sonhar, é criar, é realizar, é fazer planos, é traçar metas, ter objetivos. Aproveitar o hoje é ao mesmo tempo preparar o amanhã. Muita coisa que a gente faz não termina já, não dá frutos imediatamente. Dirão: e as pessoas de idade avançada, que sabem ter pouco tempo de vida? Vale a pena o esforço se de uma hora para outra se pode morrer? É óbvio que vale a pena. Viver é semear, é construir, sem importar a idade; é preparar um mundo melhor, independentemente de saber se vai ser possível desfrutar dele ou apenas legá-lo às gerações vindouras. Vida é continuidade. Fazer cada coisa como se fosse a última é fazer da melhor maneira possível, é ter dedicação, é pôr a alma, deixar uma parte da gente, nossa marca. A essência está na alma, que é imortal. Para quem procura preencher bem o tempo, não tem vida vazia, não há final, pois para a alma sempre haverá mais um dia.

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