Em meados de 1980, quando iniciamos caminhada para a constituição de um grupo de pessoas que pudesse dedicar tempo a ouvir quem tinha problemas – e o desejo se tornou realidade com a implantação, em 1981, do Centro de Valorização da Vida na cidade, história inesquecível que já contei nestas despretenciosas colunas – falávamos também sobre a urgente necessidade de dar guarida a drogadependentes que lutavam para deixar a dependência química.
Não buscávamos possibilidades de internações hospitalares, que prestavam, como hoje, atendimento de urgência e emergência a drogaditos. Nem internações em “casas de repouso” ou clínicas médicas que mantêm o interno sedado para enganar a síndrome de abstinência. Substituir uma dependência não satisfazia o pensamento de nosso grupo.
Queríamos algo diferente, a exemplo do que Padre Haroldo J. Rahm fazia em Campinas (SP) ou do que se realizava, por esforço próprio de vítimas das drogas em Pedro Leopoldo (MG): áreas rurais com afastamento dos usuários de drogas dos grupos sociais que freqüentavam, em somatória a laborterapia (duras atividades na terra, que cansassem o físico e o espírito, durante todo o dia e mantivessem consciências, desejos e vontades longe dos pensamentos de substâncias químicas, álcool inclusive) e a atividades espirituais, segundo a crença de cada um.
Antônio Berbel já dedicava tempo a atividade do tipo. Recebia em sua própria casa, junto da família, pais e mães cujos filhos ou familiares enfrentavam este tipo de problema e, após alguns contatos, também os próprios drogadependentes. Perguntei-lhe, um dia, sobre a razão de dedicar o espaço sagrado de sua casa a uma atividade tão complicada. Ele me disse “porque ninguém mais quer fazer. E porque não sei o que me reserva o futuro”.
O grupo entendeu que estaria no apoio a Berbel, o germe de uma comunidade similar às de Campinas e Pedro Leopoldo, na cidade. A implantação e consolidação do CVV demandou quatro longos anos de trabalho duro e incessante. Muitos ficaram pelo caminho, vencidos pelo tempo que se tinha de dedicar ou por problemas profissionais, mas outros chegaram – plantonistas do próprio CVV que, além dos horários que dedicavam ao atendimento pessoal e telefônico àqueles que precisavam “desabafar” e que, infelizmente, para não ser injusto, não vou citar nomes – e apoiaram a idéia de dar sede rural à uma “fazenda”, “chácara”, “espaço” onde Berbel pudesse manter “seus meninos” longe do ambiente da droga.
João Cândido Falleiros, ex-vereador francano e sua mulher Hermantina, plantonistas iniciais do CVV, foram determinantes. Eles também eram vicentinos, ligados à direção da Sociedade São Vicente de Paulo. Levaram para lá a necessidade da estruturação do espaço que a cidade precisava e, num certo dia, apoiados pela diretoria da obra, confirmaram a cessão de espaço no Paiolzinho, estrada Franca-Claraval. Continua lá, firme e forte, o Dcnovi - Desafio Cristão Nova Vida.
Não vou esticar o assunto. Sei que as outras comunidades terapêuticas francanas foram também o resultado de lutas hercúleas, de gente tão vocacionada quanto os evangélico Antônio Berbel e Eliana Justino, ela, do Proreavi. Estão também aí os católicos apostólicos romanos Carlos César Arcolino e Maurício Maniglia com o Narev (para homens) e Amafem (para mulheres), que podem confirmar as agruras de fundar e manter causas do gênero, que todo mundo quer... bem longe.
E é por eles que falo, nesta coluna de hoje. Sei que enfrentam “concorrência” de outras entidades por apoio material, financeiro e de voluntariado; instituições que mesmo sem oferecer vagas para Franca – e como estas vagas andam disputadas – usam a cidade para seus propósitos de manutenção. Seus representantes estão sempre nos semáforos, sem fiscalização de qualquer tipo, vendendo a R$ 1 canetas, jogos de lápis, balas-de-goma, sacos para lixo e exemplares de jornais e se apresentam como recuperandos de comunidades de drogados, mas não dizem qual e nem de onde. Se o motorista pergunta, desistem e vão a outro carro, mas há também os que insistem. Este não é um grito bairrista, mas entendo que devamos participar, isto sim, das grandes necessidades de manutenção do que já existe aqui e, sem dúvida alguma, da possibilidade de ampliar os serviços das entidades locais.
Cada cidade deve conviver com os seus filhos, bons ou ruins, mas seus filhos...
COMO FUNCIONA
As comunidades terapêuticas baseiam suas atuações no tripé “afastamento/laborterapia/espiritualidade”. O interno deve cumprir um programa de trabalho de nove meses, o que as entidades chamam de “período de renascimento”. Não se sai do centro de recuperação durante este período. Se você perguntar aos que vendem nos semáforos há quanto tempo estão em internados, dirão “dois”, “três”, “quatro”, “cinco” meses. Não poderiam estar nas ruas, não é? E não estão internados, não é? E nem em processo de recuperação, “solicitados” a arranjar dinheiro para manter suas internações. Um conjunto de problemas.
HÁ JEITO?
Sabe como as grandes soluções nascem? Quando alguns homens e mulheres se envergonham de continuar só falando para paredes e portas, presentes, mas burras. E sabe quando se tornam irreversíveis? Quando paredes e portas tomam jeito de gente e também se sentem envergonhadas.
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