Jamais a escritora francesa Christine de Pizan, autora do livro Cidade das Mulheres (obra que defendia igualdade entre os sexos) vislumbraria que essa busca pela “igualdade” tornar-se-ia ideologia modesta frente à revolução que o conceito viria a proporcionar. Não somente a mulher está se igualando ao homem em muitos sentidos, mas também, superando-o em grande estilo.
Desprenderam-se do modelo arcaico comportamental difundido e vivido pelas mulheres na Grécia Antiga – cujas funções limitavam-se aos afazeres domésticos – avançaram, ganharam espaço na sociedade e, principalmente, nos setores estratégicos onde o homem imperava como “supra-sumo”.
Os tempos são outros. Diz a sabedoria popular que “cochilou o cachimbo cai”. O homem nem sentiu. Aliás, há alguns poucos que sentem; a maioria ainda dorme entorpecida por ufania...
É possível que o homem desperte deste sono maldito? Sim, a julgar que na dança política quem carrega o homem num compasso dominante movido pela lucidez da razão, pode ser uma mulher. Mas tal situação não seria fácil, por causa do machismo-hereditário. A experiência de compartilhar poder com as mulheres é quase inconcebível, mesmo porque elas são dotadas da tal inteligência intuitiva, que as torna capazes de intervir ainda quando a ação pensada não tenha sido praticada. Interesses excusos, portanto, tendem a ser brecados, a morrerem na praia...
Como os homens convivem com essa virtude? Talvez desejassem ser sensíveis a tudo em sua volta; ou serem afáveis no trato aos seus constituintes; combativos e sinceros nos assuntos de interesse público; dedicados às ações sociais; íntegros a pontos de se absterem das tentações que rondam seus cargos; poderiam falar na tribuna com certo encanto; enfim, limpos de coração.
Penso que não seria vergonha caso algum deles desejasse ser como elas (mulheres na política) nas suas práticas e condutas, resgatando valores da classe tão desgastada. Se o poeta e cantor Pepeu Gomes nada viu de errado nesse comportamento trazendo na letra da canção Masculino e Feminino que “Ser um homem feminino / Não fere o meu lado masculino”; nada impediria que eles (homens da política) fossem mais felizes na atuação pública... Se a condição fosse esta do “toque feminino” para moralização da política brasileira, seria válida, não seria?
A francesa Christine de Pizan, se viva fosse, se alegraria pela existência, hoje, de uma “lady camarista” obstinada, Graça em pessoa com coragem para lutar em meio àqueles que desenham as leis municipais e que às vezes, sem a sensibilidade da inteligência intuitiva, pactuam para que sejam de um jeito quando o povo as queria de outro...
Ricardo Veríssimo Júnior
Funcionário público e integrante do Conselho de Leitores do Comércio da Franca
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